
Vivo hoje a mitologia digital. Sempre soube que não me bastava e busquei o que transcendesse minha dimensão na religião e no governo da vida coletiva. Com fé no que minha razão não alcançava e crença no que poderia transformar os meus dias.
Os meios de comunicação, especialmente rádio e tevê, criaram figuras olimpianas. Notáveis líderes, artistas de talento e mentes dotadas de particular conhecimento se destacaram nesse universo. E como o real não me basta, flutuei feito folha seca na ficção da literatura e do cinema como cânfora a alimentar meu imaginário e meus sonhos.
Era bom sentir-me Tarzan, Batman e toda a família de super heróis capazes do que me era impossível. Sabia que tudo era irreal, ainda que desse prazer. Mas eu precisava extravazar a volúpia do meu desejo de ser maior.
Com a fantasia liberava gases da minha panela de pressão. E então absorvia a anomia dos meus dias.
Vivia com um pé no real e outro no mitológico. Até que surgiu a internet, que me conectou devassadamente com o mundo. E me fez acreditar em heróis com pés de barro, em falsos profetas, em pregadores de ilusões.
Também em influenciadores da minha vida que, sem atributos quaisquer, tanto detêm minha atenção.
A mitologia grega era mais rica, havia um sincretismo entre o sobrenatural e profundos valores que me faziam refletir. A internet hoje preenche o vazio existencial. Preenche o espaço com o supérfulo, o superficial, o ilusório, a mentira. Já não sei o que é real. Mergulho no espaço que ironicamente parece ligar-me com o mundo, mas me isola do real.
O universo que hoje frequento são quimeras da vida que um dia vivi. A falsa e a fugaz beleza me iludem. Sem me dar conta, sou formado convictamente com retalhos de ‘verdades’ que me dão um poder que não tenho. Viciado nesse carrossel, perco-me e me distancio de mim mesmo. Meus ídolos só possuem duas dimensões, são belos, simpáticos e convincentes.
Meus amigos são aqueles que compartilham os posts dos que admiro, medíocres influenciadores, toscos arautos do desfazimento humano. Torno-me um smart ser, ao trocar meus olhos de enxergar o real por uma janela que cabe na palma da minha mão.
Sou contaminado por falsas versões dos que me lideram e questionáveis conselhos dos que, ao me venderem conforto, sacam-me likes como quem toma dinheiro na rua. E sem perceber, dou as costas aos que, de fato, precisariam de um like em forma de sorriso ou ajuda na verdadeira rua.
Não na encantadora avenida onde circula o zumbi em que me transformei.
E então, querendo me encontrar nessa frágil existência, sem perceber que possuo um ‘brainrot’, pois apodreci o meu cérebro, vejo que não sei mais sair e festejar na praça, no bar ou na escola, com outros seres, estes sim, de três dimensões.
Por isso, me transformo num ‘therian’, identificado com os animais, e viro um cachorro, escondo minha face com orelhas e focinho, passo a andar de quatro e circulo em bando. Em casa, compartilho meu prazer com uma andróide de borracha importada da China, e satisfaço a necessidade de exercitar o afeto e a proteção com um bebê reborn. Ah, em que triste ser eu me transformei.



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