Cena

Vida do enxadrista Mequinho tem nova biografia de fôlego

23/06/2026 Da Redação
Divulgação

Poucos personagens do esporte brasileiro tiveram uma trajetória tão extraordinária quanto Henrique Costa Mecking, o Mequinho. Considerado o maior enxadrista da história do país, ele foi celebrado como herói nacional nos anos 1970, alcançou o terceiro lugar do ranking mundial e chegou a ser apontado como possível candidato ao título máximo do xadrez. Agora, sua história é reconstruída em detalhes em Entre Bispos e Reis, livro do jornalista Uirá Machado lançado pela Todavia.

Com quase 500 páginas, a obra vai além da narrativa esportiva. O autor mergulha na formação do garoto prodígio nascido no Rio Grande do Sul, acompanha sua ascensão meteórica em um ambiente sem tradição enxadrística e mostra como o brasileiro conseguiu enfrentar em igualdade de condições os grandes mestres da então União Soviética, potência absoluta do xadrez em plena Guerra Fria. A pesquisa é extensa e foi baseada em mais de cem entrevistas, além de livros, artigos e milhares de reportagens sobre o enxadrista.

Mais do que contar vitórias e derrotas, Uirá Machado busca compreender as obsessões que moldaram a vida de Mequinho. O xadrez aparece como uma dedicação absoluta desde a infância. Ainda adolescente, ele abandonou os estudos para se dedicar exclusivamente aos tabuleiros. O sucesso foi rápido. Aos 15 anos, já acumulava títulos internacionais e despertava entusiasmo em um país acostumado a associar excelência esportiva apenas ao futebol.

Durante os anos 1970, Mequinho se transformou em uma celebridade. Recebia apoio do governo brasileiro, atraía multidões e representava uma rara esperança de colocar o Brasil no centro de um esporte intelectual dominado pelos soviéticos. Sua carreira, porém, sofreu uma interrupção abrupta no fim daquela década. Problemas de saúde o afastaram das competições e deram início a uma mudança profunda em sua vida.

Segundo o relato recuperado por Uirá Machado, foi nesse período que a religiosidade ganhou espaço crescente. Vinculado à Renovação Carismática Católica, Mequinho passou a atribuir sua recuperação física a uma intervenção divina e transferiu para a fé a mesma intensidade que antes dedicava ao xadrez. A religiosidade se tornaria um dos aspectos mais marcantes de sua personalidade nas décadas seguintes, influenciando escolhas pessoais e profissionais. Em anos recentes, o enxadrista chegou a afirmar que teria sido escolhido por Jesus para uma missão especial ligada às profecias do Apocalipse.

A força do livro está justamente em evitar simplificações. Uirá Machado não transforma Mequinho apenas em um campeão esportivo nem em uma figura excêntrica. O retrato construído é o de um homem complexo, dividido entre razão e fé, disciplina e fragilidade, sucesso e isolamento. A narrativa também recupera o contexto político e cultural das décadas em que ele viveu seu auge, mostrando como o xadrez se inseria nas disputas simbólicas da Guerra Fria.

Editor da Folha de S.Paulo e formado em direito e filosofia pela USP, Uirá Machado trabalha no jornal desde 2004 e já passou por diferentes áreas da redação. Em Entre Bispos e Reis, ele estreia no terreno da biografia com uma obra que combina rigor jornalístico e narrativa acessível.

O resultado é um retrato abrangente de um dos personagens mais fascinantes do esporte brasileiro. Sem exigir conhecimentos prévios sobre xadrez, o livro apresenta ao leitor a trajetória de um homem que dedicou a vida à busca da perfeição, primeiro sobre o tabuleiro e depois no campo da espiritualidade. Ao acompanhar os movimentos de Mequinho dentro e fora das 64 casas, Uirá Machado oferece também um panorama de um Brasil que sonhou em conquistar o mundo através da inteligência e do talento de um jovem gênio.