Cena

Cazé TV tem sinergia com público jovem mas não é para todos

23/06/2026 Gustavo Klein
Divulgação

As transmissões da CazéTV na Copa do Mundo consolidaram um estilo que divide opiniões. Para muitos, representam uma linguagem mais próxima da internet e do público jovem. Para mim, porém, o resultado é cansativo e pouco compatível com a importância do torneio.

Há uma diferença entre emoção e histeria. O excesso de gritos, reações exageradas e comentários feitos para gerar cortes nas redes sociais acaba transformando o jogo em pano de fundo para o espetáculo dos próprios narradores e convidados. Em vez de valorizar a partida, a transmissão parece querer chamar mais atenção do que ela.

Outro aspecto difícil de ignorar é a presença massiva das casas de apostas. As referências comerciais são constantes e, em certos momentos, dão a impressão de que o futebol se tornou apenas um veículo para promover esse mercado. É um cenário preocupante, principalmente em um país que ainda discute os impactos sociais do crescimento acelerado desse tipo de negócio.

Nem se pode dizer que essa fórmula seja exatamente nova. Décadas atrás, Silvio Luiz já apostava no humor, nas frases de efeito e em uma relação mais descontraída com o público. Milton Leite também construiu uma carreira baseada em bordões e espontaneidade. A diferença é que ambos mantinham uma preocupação maior com o ritmo da transmissão e com a narrativa da partida. Havia espaço para a irreverência, mas também para o silêncio, para a informação e para o respeito ao jogo.

Na CazéTV, muitas vezes parece haver um descompromisso com esses limites. A impressão é que vale mais a reação instantânea do que a análise, mais a brincadeira do que a contextualização. Nem sempre quantidade significa carisma, e nem toda informalidade resulta em qualidade.

O sucesso de audiência mostra que há público para esse modelo. Isso é inegável. Mas audiência e qualidade não são necessariamente a mesma coisa. O futebol sobreviveu a diferentes estilos de transmissão e continuará sobrevivendo. Ainda assim, é difícil não sentir falta de narradores que entendiam que o protagonista da Copa do Mundo sempre foi o jogo, e não quem está atrás do microfone.