Cena

VARO leva a boa música latino-americana instrumental a Cuba

14/08/2025 Isabela Marangoni
Julio César

Prestes a dar mais um passo na trajetória internacional, Felipe Romano e Heitor Vallim, integrantes da VARO, dupla de música popular instrumental latino-americana, embarcam para Cuba no dia 20 de agosto, para uma turnê que mistura shows, gravações e intercâmbio artístico. Antes da viagem, a VARO faz sua última apresentação na cidade hoje (14), a partir das 18 horas, no Seventy, na Rua XV de Novembro.

A VARO nasceu no fim de 2022 como um encontro de afinidades musicais e criativas. “Nos conhecemos tocando em outro projeto, e quando ele parou, percebemos que tínhamos muitas músicas guardadas. Deu match no estúdio, no jeito de criar, e decidimos gravar e lançar, sem muita expectativa”, conta Felipe.

Com passagens por festivais como o Santos Jazz Festival e participações em palcos internacionais, como o Festival Gliding Barnacles e no espaço Mirari, em Portugal, a dupla se consolida como um dos expoentes da nova música instrumental com raízes latino-americanas. Seu som traz forte apelo melódico e corporal. “A ideia é que as pessoas saiam cantando alguma melodia. Música instrumental não precisa ser só para ser contemplada; queremos que seja sentida, dançada”, diz Heitor.

No palco, a dupla combina guitarra, teclado, percussão e contrabaixo com bases pré-produzidas, disparos de samples e intervenções sonoras, criando um espetáculo interativo e visualmente pensado. “Cada ação nossa vem acompanhada de uma produção visual. Juntamos nossas habilidades em design e audiovisual para dar mais força ao trabalho”, completa Felipe.

Missão internacional

A escolha por Cuba não é casual. “Se a África é o berço da percussão, Cuba é um dos lugares onde essa herança se manteve mais intensa. O tambor chegou com a diáspora africana e se desenvolveu em vários países da América Latina, mas Cuba tem uma riqueza rítmica impressionante”, explica Felipe. “É um país pequeno, mas com inúmeros gêneros e subgêneros. A música deles dialoga com o samba-reggae da Bahia, com os cocos pernambucanos… tudo está interligado”.

Além da troca cultural, o duo quer compreender a força e a persistência dos músicos cubanos. “Eles têm um nível técnico altíssimo e aprendem música desde cedo, como parte do currículo escolar. Lá, matemática, português e música estão no mesmo patamar. Isso muda tudo”, diz Heitor.

A agenda inclui participação no Festival Arte en La Rampa, promovido pela Asociación Hermanos Saíz, organização nacional que impulsiona a vanguarda artística e intelectual de Cuba desde 1986, e Anestesia, promovido pelo La Jeringa. Outro destaque será a colaboração com a cantora e compositora cubana Yuly, artista premiada internacionalmente. Juntos, vão criar uma faixa inédita, unindo sonoridades afro-latinas e brasileiras. “Conhecemos a Yuly pela internet. Ela foi super receptiva e nos convidou para gravar em seu estúdio. Vai ser um encontro muito especial”, comenta Felipe.

A produção da viagem começou em junho e exigiu persistência. “Os atrasos nas respostas eram enormes, mas a acolhida cubana é incrível. Eles querem receber você, mostrar o país. Lá, o que você planejou provavelmente não vai acontecer — e isso é ótimo, porque acaba acontecendo muito mais”, diz Heitor.

O trabalho da VARO também carrega um viés político-cultural. “Nossa música valoriza as identidades latino-americanas e africanas. É um posicionamento. Não se trata de negar outras culturas, mas de dar espaço e orgulho para o que é nosso por essência”, afirma Felipe. “A música brasileira é muito mais que samba, e pode dialogar com influências diversas sem perder a raiz”.

Antes de Cuba, a dupla passou por Portugal e visitou a Espanha, experiências marcadas por descobertas e contrastes. Agora, buscam contato com um país que preservou elementos culturais de matriz africana, como a Santeria – religião afro-caribenha de origem cubana. “Eles não apagaram essa parte da história, e isso é muito interessante de entender”, comenta Heitor. A viagem também será oportunidade para criar em parceria: um dos videoclipes será de uma música já gravada no Brasil, “Piseiro de Praia” e outro será feito com artistas locais.

Herança musical

A dupla detalha como cada viagem é uma oportunidade de refletir sobre identidade, história e musicalidade: “É aquele negócio de antropofagia. A gente aglutina tudo, mas sabe de onde está vindo o que está aglutinando”, explica Felipe.

Eles também refletem sobre a diversidade musical brasileira e a influência das tradições africanas. “Enquanto digital Maracatu, viajei por 17 anos por Pernambuco e pelo Brasil, sempre participando de encontros e manifestações populares. Isso está presente no nosso som. Agora, queremos explorar países colonizados pela Espanha para compreender o que nos torna latino-americanos”, diz Heitor.

Financiamento coletivo

Para viabilizar as produções audiovisuais da turnê, a dupla lançou a campanha “VARO Vai a Cuba”, com arrecadação via chave PIX: [email protected]. A iniciativa cobre custos de gravação, edição e difusão do material captado durante a viagem. “Vamos trabalhar com pessoas de lá, contratar gente de lá e registrar tudo”, explica Heitor.

Apesar dos desafios, a dupla valoriza a experiência cultural e o aprendizado mútuo. “Trabalhar com pessoas que têm visões diferentes nos faz chegar a consensos. Cada viagem nos ajuda a aprimorar nosso trabalho e nossa compreensão do mundo”, conclui Felipe.

Última apresentação

Hoje (14), a partir das 18 horas, a VARO se despede do público santista com a apresentação gratuita do ‘Baile Latino – VARO vai à Cuba’ no Seventy, no Centro Histórico, no mesmo formato que levarão a Cuba, com participação de Julio Cesar Pilão e Igor Maciel. “É a despedida e um abraço no público antes dessa nova etapa. Quem quiser, é só aparecer”, convida Heitor.