Cena

‘Trisalhaças’ abre nova temporada no Jardim Botânico de Santos

25/07/2025 Isabela Marangoni
divulgação

Riso solto, alegria contagiante e muita palhaçada para toda a família marcam o retorno do projeto Circo Jardim, do Instituto Bordallo Cultural. A reestreia acontece neste domingo (27), às 15 horas, no Jardim Botânico de Santos, com o espetáculo ‘Trisalhaças’. Protagonizada por Juliana Bordallo, Letícia Lotus e Miriã Pessoa, a montagem combina música, poesia, mágica e arte da palhaçaria em uma experiência cênica sensível e divertida, voltada a todos os públicos.

A apresentação marca o início da temporada 2025 do projeto sociocultural, que desde 2022 democratiza o acesso à arte circense por meio de sessões gratuitas em onze territórios de Santos, como Vila São Jorge, Vila Pantanal, Ilhéu Baixo e Vila dos Criadores.

O espetáculo nasceu da amizade entre as artistas e da vontade de fundir diferentes linguagens em cena. “Cada uma já tinha sua trajetória na palhaçaria, e a gente resolveu se juntar. O nome ‘Trisalhaças’ vem disso: somos três palhaças muito amigas, cada uma com seu universo”, explica Letícia, que também é musicista com mais de 18 anos de carreira. “Eu sou a palhaça da música. Fico perturbando as meninas o tempo todo com isso”, brinca.

Ao longo da encenação, o trio cria seu próprio circo, misturando esquetes, músicas autorais e interação direta com o público — inclusive com crianças que, muitas vezes, sobem espontaneamente ao palco. E esse palco pode ser uma praça, uma quadra comunitária ou o próprio Jardim Botânico.

Mais do que um espetáculo, Circo Jardim é também uma ocupação cultural, voltada a promover o encontro entre arte e território. “A ideia era fazer a arte circular. A cultura precisa estar onde as pessoas estão. Nem todo mundo tem R$ 5 para o ônibus, muito menos para pagar um ingresso. Então, a gente leva o espetáculo até elas”, afirma Letícia. “É lindo ver o envolvimento da comunidade. Às vezes, eles já estão lá ajudando a montar, organizando a fila da pipoca, oferecendo algodão-doce, cuidando do espaço. É sobre pertencimento”.

Com humor e afeto, ‘Trisalhaças’ também provoca reflexão. “A nossa palhaçaria tem pauta, tem delicadeza, tem construção. A gente quer provocar risos, mas também reflexões”, destaca Letícia.

Ela conta que entrou para o universo da palhaçaria após anos de atuação como musicista. “Tudo começou com um convite para tocar em um cortejo. Fiz três apresentações e me apaixonei. Pedi para continuar. Fiquei para estudar. E virei palhaça. Mas não qualquer uma. Eu sou a Porópópó: tímida, introspectiva, mas que se transforma quando começa a tocar”.

A opção pelo teatro de rua também é uma escolha política. “É um rompimento com o tempo das telas, com esse excesso de estímulo. Quando uma criança senta para ver o espetáculo, sem precisar fazer nada, sem pular de vídeo em vídeo, ela se reconecta com a imaginação, com o lúdico. Isso é potente”.

A resposta do público reforça a importância do projeto. “É emocionante ver as senhorinhas chorando porque lembraram do circo da infância, ou a criança que nunca viu um violão e decide ali que vai aprender a tocar”, compartilha.

O Circo Jardim é realizado com apoio da Secretaria de Cultura e de vereadores da cidade. Segundo Letícia, os recursos ainda são limitados, e o diálogo com o poder público é constante. “A gente faz porque acredita. Mas claro que seria maravilhoso se tivéssemos mais investimento, mais reconhecimento. Porque dá para fazer, e fazer bonito, se houver parceria”, afirma. “É uma luta constante, todo ano é preciso correr atrás. Mas quando a gente vê uma criança que nunca tinha assistido a um espetáculo de circo se encantar, tudo vale a pena”.

Além do Circo Jardim, o Instituto Bordallo desenvolve outros projetos socioculturais, como o cinema itinerante, o Elas por Elas — que capacita mulheres em comunidades —, e rodas de conversa sobre cultura e direitos. “A ideia é fortalecer pessoas e territórios por meio da arte. E o retorno que a gente recebe é incrível”, diz.

Ela destaca o valor simbólico do projeto. “O mais importante é ver o sorriso das pessoas, saber que aqueles 40 minutos foram um alívio na semana inteira. O circo transforma, emociona. Ele rompe com a tela do celular e cria presença real”.

As apresentações no Jardim Botânico agora acontecem mensalmente. Nos outros domingos, o grupo circula por diferentes bairros da cidade com sessões adaptadas a cada local — muitas vezes com artistas convidados, inclusive internacionais. “Já recebemos palhaços do México, da Croácia, e vamos ter mais apresentações de fora este ano. A arte tem que circular, tem que encontrar gente, tem que estar onde o povo está”.

A programação de 2025 prevê uma apresentação por mês no Jardim Botânico e circulação regular por territórios periféricos da cidade. A agenda completa está disponível no Instagram @institutobordallo.

E, para quem ainda não viu ‘Trisalhaças’, o convite está feito. “Venham. Temos tem mágica, poema, música, cortina de palhaço e tem um espetáculo feito com amor — mas não só por amor. Porque cultura é direito. E o riso é só o começo”.