Cena

Transformação social por meio da cultura em Santos

14/04/2025 Isabela Marangoni
Nice Gonçalvez

Fundado em 2002 por José Virgílio Leal de Figueiredo, o Instituto Arte no Dique nasceu com a missão de transformar a realidade dos jovens da comunidade da Vila Gilda, um dos maiores complexos de palafitas da América Latina. Seu objetivo é promover a mudança social e o desenvolvimento sustentável por meio da arte, cultura e qualificação profissional, alcançando crianças, jovens e adultos em situação de vulnerabilidade.

Como um dos principais projetos socioculturais sem fins lucrativos de Santos, o instituto tem sido uma ferramenta poderosa de inclusão e de criação de oportunidades, utilizando a arte e a educação como pilares. Sua fundação foi realizada em parceria com o Instituto Elos, o Grupo Cultural Olodum da Bahia e a Sociedade de Melhoramentos da Vila Gilda – atualmente transformada na Comissão de Moradores do Arte no Dique. Ao longo de sua trajetória, conquistou o apoio de diversos setores da sociedade, incluindo a Prefeitura de Santos, COHAB, Ministério da Cultura, SESC, SESI, além de ONGs e empresas do setor portuário.

Ao longo de mais de duas décadas de atuação, o Instituto Arte no Dique se consolidou como um centro cultural, oferecendo uma gama de atividades artísticas e culturais para a comunidade. Muitos dos jovens que começaram no projeto hoje atuam como monitores remunerados, transmitindo o conhecimento adquirido e ampliando o impacto social da iniciativa. O presidente do instituto, José Virgílio, reforça a importância dessa transformação. “Minha vida sempre foi ligada à arte, à cultura, à música. Sempre fui movido por uma inquietação. Não suporto a acomodação. Quando vejo que não há mais espaço para crescer, eu saio, mudo o rumo”.

TRAJETÓRIA DO INSTITUTO

José Virgílio – ou Zé, como gosta de ser chamado –, nasceu na Bahia e chegou a São Paulo em 1999, após consolidar sua carreira no campo cultural em sua terra natal. Em Salvador, ele trabalhou na Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), onde teve um papel fundamental na restauração do Pelourinho, um dos maiores símbolos da cidade. Durante a gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura, Zé foi um forte incentivador da cena, especialmente da valorização das tradições afro-brasileiras.

Sua chegada à capital paulista marcou o início de um novo capítulo em sua trajetória, dedicando-se integralmente ao desenvolvimento do Arte no Dique. O projeto rapidamente chamou a atenção de grandes nomes da música brasileira, que participaram ativamente de suas atividades culturais. “Criei um projeto chamado Regra e Compasso, com apoio do Olodum, que levei para a favela Jardim Santo André. Foi esse projeto que me trouxe para Santos. Uma psicóloga que trabalhava com a prefeitura de Santo André me levou. Um vereador chamado Fausto Figueira me chamou para conversar. A partir daí nasceu o Arte no Dique”.

Em Santos, Zé iniciou a construção do instituto com a missão de transformar a realidade social e educacional dos jovens da comunidade. “Começamos com samba-reggae, com percussão. Depois vieram teatro, dança, audiovisual. A molecada ocupou o espaço. Se empoderou. O Arte no Dique virou referência, virou resistência.” Ele destaca ainda a energia única da cidade. “Sempre tive essa sensibilidade para captar a alma dos lugares por onde passei. E aqui tem uma energia cultural forte, uma identidade que pulsa, principalmente na comunidade”.

Um centro de cultura e educação que faz a diferença

Com mais de 20 anos de história, o Arte no Dique tornou-se um polo cultural de desenvolvimento em Santos, oferecendo oficinas, shows, cursos e projetos audiovisuais. Um dos maiores destaques do instituto é a Escola Popular de Arte e Cultura Plínio Marcos, que oferece formação interdisciplinar nas áreas de teatro, dança, música e outras expressões artísticas. “A escola nasceu do chão da comunidade. Quando chegamos não tinha nem a estrutura pronta, fomos limpando, pintando, puxando fio, improvisando palco. Foi coletivo, foi orgânico”, conta Zé.

O instituto conta ainda com projetos de grande impacto como o Som das Palafitas, que descobre e promove talentos locais; o Intercâmbio Internacional, que proporciona trocas culturais entre jovens da comunidade e participantes estrangeiros; o Arraial do Arte, que celebra as tradições juninas; a Semana Cultural da Primavera, focada na educação ambiental e sustentabilidade; o Cine Maria Mulata, que oferece exibição de filmes e debates; e os Projetos Palafitas, que promovem intervenções artísticas nas artes visuais.

“Nosso objetivo nunca foi apenas ensinar a tocar ou dançar. É sobre construir identidade”, enfatiza Zé. Outro projeto de grande relevância é o curso gratuito de cinema, embrião da Escola de Cinema Glauber Rocha – nome escolhido em homenagem ao grande cineasta do Cinema Novo –, estruturado pelo crítico de cinema André Azenha, que oferece aos jovens da comunidade a oportunidade de se aprofundar na fotografia, direção e técnicas cinematográficas, ampliando suas perspectivas profissionais. “Não é para brincar de cinema. É para formar gente de verdade”, afirma Zé.

Como parte do programa, um filme está sendo produzido em parceria com Ugo Castro Alves, e será apresentado Marselha, na França, abordando a rica cultura das comunidades do Dique da Vila Gilda, em Santos, e do Dique do Tororó, em Salvador. “Queremos levar essa história para o mundo e mostrar a riqueza cultural dessas comunidades”, destaca Zé.

APOIO E PARCERIAS
Com uma presença ativa nas redes sociais (@artenodiqueoficial), o instituto compartilha suas atividades e eventos, engajando a comunidade e fortalecendo a visibilidade do projeto. “Essa é uma iniciativa que gera dignidade e cidadania para as pessoas, e toda ajuda é bem-vinda”, conclui Zé.