Cena

Territórios Invisíveis: mostra revela a vida e as contradições da Bela Vista

19/11/2025 Isabela Marangoni
Samara Freitas

O Museu da Imagem e do Som de Santos recebe a exposição Territórios Invisíveis: Bela Vista, que convida o público a enxergar de perto a realidade da comunidade localizada na Vila Progresso. Contemplada no 11º Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes de Santos, a mostra fica em cartaz no MISS até 1º de dezembro. Depois segue para a Estação Cidadania, de 2 a 9 de dezembro, passa por uma apresentação especial no Jardim Botânico Chico Mendes e encerra no Sesi Santos, onde permanece de 13 de dezembro a 1º de janeiro de 2026.

A arquiteta urbanista e gestora geral da exposição Samara Freitas conta que a semente do projeto germinou de forma quase espontânea, durante um trabalho conjunto com a fotógrafa Mariana Cosmassi e a produtora Ana Lúcia Lemos, em 2022. “Nós nos conhecemos atuando na EVORA Coletivo Instituto Procomum ATHIS, na Baixada. Foi naquele trabalho na comunidade Bela Vista que tudo começou”, lembra.

Daquela experiência, a equipe passou a acompanhar mais de perto o cotidiano da Bela Vista — uma pequena comunidade com cerca de 120 famílias, situada no alto do morro e em processo de reintegração de posse desde 2017. “É uma ocupação. A área não tinha nada quando eles chegaram. É um território delicado, mas extremamente pacífico. São famílias, trabalhadores. Durante o dia, quase não há ninguém porque todos saem para seus empregos”, relata Samara.

Na época, Mariana chegou a produzir o documentário ‘BELA VISTA: Reflexos da Resistência’, que teve forte recepção. “No MISS, ofereceram deixar o documentário rodando durante a exposição. Foi uma surpresa muito bonita”, conta.

O que a cidade não vê

O nome ‘Territórios Invisíveis’ reflete a essência da iniciativa: iluminar o que se acostumou a permanecer à margem. “Queremos humanizar esses espaços que muita gente só enxerga de longe. As pessoas olham para o morro e veem ‘uma favela’, mas ali existem vidas: dores, alegrias, rotinas, famílias que só querem um pedaço de terra para construir uma casa”, afirma Samara.

Ela reforça que a escolha pela Bela Vista evidencia contradições profundas da cidade. “Santos figura entre os maiores IDHs do Brasil, a ‘melhor cidade para se viver’. Mas, ao mesmo tempo, tem uma das maiores palafitas da América Latina e uma demanda habitacional enorme. É um contraste muito grande”.

Infâncias que doem

Entre as vivências mais duras, Samara destaca uma realidade que se repete em comunidades brasileiras. “Entre 30% e 50% da população de favelas é composta por menores de idade. As crianças são as que mais pagam”.

Ela lembra um episódio marcante para Mariana. “Em uma das visitas, ela encontrou uma família cozinhando no fogo porque não tinha dinheiro para comprar gás. As crianças esperavam para comer. Aquilo mexeu muito com ela”.

A comunidade

Segundo Samara, a Bela Vista acolheu o projeto com entusiasmo. “Eles queriam falar, queriam ser ouvidos. Nas fotos, pediam para mandarmos os retratos. Queriam guardar, ter aquele registro”.

O documentário também emocionou os moradores. “Eles ficaram animados, orgulhosos. Queriam que a história deles fosse contada”.

Direito à cidade e moradia digna

Para além da estética, a exposição busca provocar reflexão. “Muita gente não imagina que, aqui do lado, existe uma comunidade sem água, esgoto ou infraestrutura mínima. A cidade não vê — e às vezes o poder público também não enxerga o suficiente”, ressalta Samara.

A circulação da mostra é parte estratégica do projeto. “Cada espaço alcança um público diferente. É uma forma de levar a discussão para diversos pontos da cidade”, explica Samara.

Impacto esperado

Para a arquiteta, o projeto pretende mais do que registrar um território. Quer abrir perguntas. “Quero que as pessoas se perguntem: essa é a cidade que a gente quer?”

Ela resume o propósito maior. “Nosso objetivo é fomentar o debate sobre moradia digna e direito à cidade. Santos tem um dos maiores portos do mundo e um IDH altíssimo, mas problemas habitacionais profundos. Queremos contribuir para que isso deixe de ser invisível”.