
Na primeira semana de setembro, antes de embarcar para a China “e ficar completamente desconectada”, a atriz Denise Weinberg, estrela de O Último Azul, transbordava de alegria. A razão, mais uma vez, era Teresa, sua personagem no filme do diretor pernambucano, Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim. A felicidade de Denise tinha um motivo concreto: 60 mil ingressos vendidos na primeira semana de exibição nas capitais e grandes cidades brasileiras. “Não é comum um filme brasileiro ter essa audiência”, comemorou a atriz. “Estamos todos – atores, direção e produção –, muito felizes. É mais um presente que Teresa me dá”.
O Último Azul trata de etarismo, um preconceito que avilta as pessoas idosas, e que, não raro, descamba para a negligência, maus tratos e prejuízo patrimonial ou financeiro. O etarismo se esconde nos obstáculos invisíveis e inconfessáveis do mercado de trabalho, escancara-se em comentários jocosos ou odiosos que transformam pessoas idosas em criaturas infantis ou trastes imprestáveis. Os maus tratos e o assalto patrimonial e financeira, em geral, é perpetrado por parentes — filhos principalmente . Segundo a Ouvidoria do Ministério dos Direitos Humanos, que mantém o Disque 100, o Ligue 180 e o Canal 190, todos para denúncias, os crimes contra pessoas idosas cresceram 38% no primeiro trimestre deste ano, com relação ao mesmo período de 2024, com o registro de mais de 65 mil casos.
O etarismo que pretendeu atingir a personagem Teresa em O Último Azul é diferente. Quem agride é o Estado, que age em nome da lei ao caçar idosos para removê-los para “a colônia”. Isolados e sob vigilância, não vão preocupar os filhos e não vão afetar a produtividade do sistema.
A esse Brasil não tão distante da realidade, convencionou-se chamar de distópico. Mas há controvérsias. “Distopia nós enfrentamos na pandemia”, discorda Denise Weinberg. “Gabriel (Mascaro) e eu conversamos muito sobre isso, mas as pessoas parecem viciadas em repetir distopia, distópico, para tudo que é muito diferente do que estão acostumados a ver. No filme, Gabriel brinca inteligentemente com uma suposta distopia, que, na verdade, é a utopia de Teresa por viver livre”.
Faz sentido. Ao não aceitar a imposição do Estado para os seus últimos anos de vida, a heroína decide enfrentar a “polícia cidadã”, e foge para navegar sem parar entre igarapés e afluentes dos grandes rios da Amazônia. Sem porto definido, redescobre a própria vida, e faz amigos, entre eles Cadu, o personagem de Rodrigo Santoro, marcado por um amor perdido. É ele quem conduz Teresa pela viagem lisérgica do “caramujo da baba azul”.
Denise Weinberg não é apenas uma atriz brasileira idosa que, no momento, ocupa um lugar de evidência internacional na pele de uma operária de 78 anos de um frigorífico de carne de jacaré. A personagem que ela interpreta é rarissimamente encontrada nos roteiros do cinema. Ela não está em cena para morrer em breve, nem quer reviver o passado ou ressuscitar o grande amor perdido na juventude. O que ela quer é viver com liberdade os anos que lhe restam.
“Teresa me deu esse lugar de fala e não irei desapontá-la”, promete Denise Weinberg. “Temos muita coisa em comum, embora eu nunca tenha sido pessoalmente alvo de etarismo. Nós duas temos a mesma alegria de viver, a mesma raiva, a mesma curiosidade, o mesmo amor pela liberdade. Como ela, moro sozinha, dirijo sozinha, faço tudo só. Mas não se trata de solidão sofrida – e sim de solitude, que é estar só e bem consigo mesma”.
Durante cinco dias da semana de estreia, ela conversou com mais de 800 pessoas que haviam acabado de ver o filme – a maioria de mulheres 50+, muitos jovens e pouquíssimos homens. “O mais lindo foi ver os jovens se aproximando meio sem graça, tímidos, e ouvir deles que eu os havia ajudado a ver seus avós com outros olhos. Lindo mesmo!”.
Fazer com que as novas gerações vejam as pessoas idosas com outro olhar é um dos principais objetivos da robusta e variada política pública de Santos para os 50+, que também combate o etarismo. “Eu sei desse apoio e das atividades para as pessoas idosas da cidade. É muito legal isso também! Mas confesso que não esperava que meu trabalho no filme fosse tão longe”.


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