Cena

Surpresa zero: ‘Aqui Agora’ vai sair do ar, apenas um ano após reestreia

03/06/2026 Gustavo Klein
Reprodução

O anúncio do fim da mais recente versão do Aqui Agora encerra uma experiência que nasceu cercada de nostalgia, mas que jamais encontrou espaço no Brasil de 2026. Após cerca de um ano no ar e sucessivas tentativas de reformulação, o programa deixará a grade do SBT depois da Copa do Mundo, vítima de um problema muito maior do que a baixa audiência: a insistência da televisão aberta em acreditar que o passado pode ser simplesmente reproduzido.

Quando surgiu, em 1991, o Aqui Agora revolucionou a linguagem televisiva. O programa transformou o noticiário policial em espetáculo popular, aproximou o repórter das ruas e criou uma estética que influenciou toda uma geração de telejornais. O problema é que aquele Brasil não existe mais. A televisão deixou de ser a única fonte de informação imediata, e o público passou a consumir notícias em tempo real pelas redes sociais, aplicativos e plataformas digitais.

Ainda assim, o SBT apostou na força da marca. A estratégia parecia simples: recuperar um título histórico e despertar a memória afetiva dos telespectadores. O resultado, porém, mostrou que uma marca forte não substitui um projeto sólido. O novo Aqui Agora nunca encontrou uma identidade própria. Oscilou entre a nostalgia e a tentativa de competir com programas policiais já consolidados, sem conseguir se destacar em nenhuma frente.

Os números refletiram esse impasse. Em diversos momentos, o programa ficou atrás da concorrência direta e registrou índices incompatíveis com a expectativa criada em torno de seu retorno. Houve dias em que sequer alcançou dois pontos de audiência na Grande São Paulo, um desempenho preocupante para uma atração lançada como uma das apostas da emissora para recuperar relevância no horário.

Mas seria injusto atribuir o fracasso apenas ao programa. O encerramento do Aqui Agora também revela a falta de rumo da própria emissora. Nos últimos anos, o SBT transformou sua grade em um laboratório permanente, onde atrações estreiam, mudam de horário, são reformuladas ou simplesmente desaparecem antes de amadurecer. O resultado é uma sensação constante de improviso, que dificulta a criação de hábitos no público.

A verdade é que o canal parece preso entre duas épocas. Não consegue competir com a força industrial da Globo, enfrenta dificuldades para enfrentar o jornalismo popular da Record e vê a Band consolidar nichos específicos. Em vez de investir em formatos realmente novos, frequentemente recorre a marcas históricas na esperança de reviver antigos sucessos.

O fim do Aqui Agora deixa uma lição importante: audiência não se recupera com saudosismo. O telespectador pode sentir carinho por um nome clássico, mas permanece diante da tela apenas quando encontra conteúdo relevante. O programa que um dia revolucionou a televisão brasileira tornou-se, paradoxalmente, símbolo da dificuldade de parte da TV aberta em compreender as transformações do próprio público.