
Por meio de um método inovador que une esporte e saúde, o projeto de skate terapia criado por Lupercio Conde — com o apoio de uma equipe multidisciplinar — tem promovido inclusão e desenvolvimento para crianças, jovens e adultos com deficiência na Baixada Santista. Inspirado na equoterapia — abordagem terapêutica que utiliza o cavalo em práticas integradas de saúde, educação e equitação —, o programa utiliza o skate como ferramenta para estimular o equilíbrio, a cognição, a autoestima e a autonomia.
“Assim como a marcha do cavalo provoca estímulos cerebrais, o movimento do skate também gera impactos neurológicos, físicos e emocionais”, explica Lupercio, que também é fundador da Associação de Equoterapia de Santos. A ideia do novo projeto surgiu de forma espontânea, ao presenciar uma criança autista em crise se acalmando ao ver um skatista. “Na hora, percebi o potencial do skate como foco e estímulo. Fiz um teste com o menino e o resultado foi instantâneo. Pensei: aqui tem um projeto”, relembra.
Assim nasceu, há cerca de oito anos, a Skate Terapia de Santos. “Desenvolvemos o método junto com professores, fisioterapeutas e educadores físicos. Ao longo dos anos, fomos aperfeiçoando as atividades, observando os resultados e estruturando a metodologia”, conta Lupercio. A iniciativa é pioneira no Brasil no uso estruturado do skate como recurso terapêutico voltado ao desenvolvimento psicomotor e cognitivo. O projeto atende gratuitamente crianças e jovens com diferentes deficiências, especialmente com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas também com paralisia cerebral, síndrome de Down e amputações.
As aulas têm estrutura progressiva. No início, os participantes não utilizam skates com rodas. Começam com o “Skatebalance” — um shape fixo, sem deslocamento — para treinar o equilíbrio. “Só nos últimos 15 minutos da sessão, dependendo da evolução, eles passam para o skate convencional”, explica. Cada sessão envolve circuitos lúdicos, com estímulos visuais, sensoriais e exercícios de coordenação motora e espacial. “Pular um obstáculo de 20 cm pode parecer simples, mas exige integração entre cérebro, corpo e percepção. E eles evoluem rapidamente”, afirma.

APOIO
As mães confirmam os benefícios. A paulistana Soraya Azor, mãe de Bernardo , de 11 anos e TEA com dificuldade de comunicação, conheceu o projeto após se mudar para Santos. “Um professor de música recomendou. Desde o primeiro contato, fomos muito bem recebidos. O trabalho é extraordinário: profissionalismo com amor e respeito pela criança e pela família. Foi uma das melhores coisas que nos aconteceram aqui”.
Fernanda Giglio Basílio, mãe de Gabriel, de 12 anos com Síndrome de Down, também percebeu ganhos além do físico. “Coloquei ele pensando no equilíbrio, mas o que mais melhorou foi a autoconfiança. Ele perdeu o medo, se soltou”.
Para Fabíola Souza, fundadora do Instituto Autismo Brasil e mãe de João Vitor — um menino autista não verbal, com grau severo de suporte —, o esporte é essencial para o bem-estar e o desenvolvimento social. “O esporte regula meu filho. É o que faz ele dormir melhor, sorrir, ficar feliz. É dignidade. Ele faz atividade física todos os dias”, relata.
Com atividades realizadas na pista do Emissário Submarino, no Quebra-Mar, e na Clínica-Escola do Autista, no Marapé, o projeto já atendeu centenas de pessoas e é procurado por famílias de toda a Baixada. Como depende de emendas parlamentares e doações privadas, os atendimentos são organizados em ciclos de seis meses, com intervalos entre as turmas. “Quando a criança para, infelizmente há regressão. Por isso, buscamos ampliar o apoio e os recursos para manter o atendimento contínuo”, diz.
IMPORTÂNCIA
Segundo a vereadora Cláudia Alonso (PODE), o esporte é uma das ferramentas mais potentes de inclusão. “Muitas vezes, a pessoa com deficiência é subestimada, vista como alguém que ‘não vai conseguir’. E temos inúmeros exemplos que mostram o contrário. O que falta são profissionais com um olhar mais sensível e capacitado”, destaca.
A coordenadora de Políticas para Pessoas com Deficiência da Prefeitura de Santos, Cristine Zamari, reforça a importância da prática. “O esporte é benéfico para todos. No caso das pessoas com deficiência, respeitadas suas especificidades, ele melhora tanto a parte motora quanto a cognitiva”.
A eficácia do método já foi reconhecida pela Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), que realizou em maio a primeira turma de um curso de extensão voltado à formação de educadores físicos e fisioterapeutas na metodologia da skate terapia. A ideia é expandir o projeto para outras cidades, escolas e clubes. “Queremos que esse conhecimento circule. O método tem base técnica, resultados reais e pode transformar vidas em muitos lugares”, defende Lupercio.
Os benefícios vão muito além do desenvolvimento motor e cognitivo. Segundo ele, há impactos positivos no sono, na irritabilidade, no foco e no convívio familiar. “As mães agradecem chorando. Dizem que é a primeira vez que o filho participa de algo com alegria e vontade. É transformador”.

ATIVIDADES
Para participar, é necessário passar por uma triagem com a assistente social do projeto. “Analisamos o grau da deficiência e a disponibilidade da família. Infelizmente, nem todos conseguem vaga de imediato, mas mantemos uma lista de espera e buscamos alternativas”, explica Lupercio. As atividades são gratuitas, voltadas principalmente a famílias de baixa renda. “Cerca de 80% dos atendidos vêm de contextos vulneráveis. E muitas mães estão sozinhas — em muitos casos, o pai abandona a família após o diagnóstico”, denuncia.
Apesar dos desafios, o criador do projeto segue esperançoso. “O esporte é a melhor terapia. Com estrutura, dedicação e apoio, é possível mudar a realidade de muita gente”.


Deixe um comentário