Cena

‘Saneamento Básico’ discute papel do cinema com humor

27/06/2025 Paulo José
Reprodução

Qual é a utilidade da arte? O que o cinema, o audiovisual, representa no nosso cotidiano? Essas são questões que permeiam Saneamento Básico, o Filme, obra de 2007 do diretor gaúcho Jorge Furtado. O longa conta a história de uma pequena comunidade de descendentes de imigrantes italianos que moram em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul que carece de recursos para uma obra de tratamento de esgoto.

Diante das dificuldades para conseguir o aporte necessário, Marina (Fernanda Torres) e Joaquim (Wagner Moura), moradores da vila, descobrem um subsídio do governo concedido a partir da produção de um filme, e convencem os vizinhos a investirem na alternativa inusitada. Mas tem um detalhe: a verba só é destinada a filmes de ficção.

“O que é ficção?”, se perguntam os dois personagens. Eventualmente, eles “descobrem” que é “filme de monstro”. Daí surge o projeto do curta O Monstro da Fossa.

A proposta simples casa bem com a informalidade dos diálogos, em uma comédia que funciona pela identificação com o público. E tudo flui com muito mais facilidade em um elenco estrelado, que além de Fernanda Torres e Wagner Moura, ainda conta com Camila Pitanga, Paulo José e Lázaro Ramos.

O humor vem, principalmente, de diversas situações em diferentes etapas do processo de criação do filme, que mostram o cinema como parte da vida dos personagens. Os moradores da vila gaúcha não conhecem a teoria e não tem nenhuma prática, mas isso não impede que eles tenham a percepção de determinadas técnicas cinematográficas, sem mesmo saber a nomenclatura delas, e a compreensão do que forma a narrativa de um filme. Coloca o cinema como um elemento da natureza.

Há um momento em que Marina explica para Joaquim uma cena em que a câmera estará em POV, ou seja, em primeira pessoa, no ponto de vista do monstro. “Como se o monstro fosse a gente! Eu vi num filme uma vez aí eu botei”. A personagem não sabe o que é um POV, mas o convívio com o cinema enraizou vários trejeitos que compõem um filme no seu imaginário, o que faz com que essas escolhas narrativas e o significado delas sejam óbvias.

O filme pensa em uma relação universal e pessoal com a arte, especialmente com a imagem em movimento, que parece estar inserida no nosso dia a dia desde sempre – uma realidade que só aumenta com o tempo, em um mundo com cada vez mais telas, que surgem cada vez mais cedo na nossa rotina.

A discussão não fica somente nesse vínculo com a linguagem, mas também se estende para a utilidade da arte, o papel dela, e como nos relacionamos com ela a partir de uma perspectiva material e objetiva do que a arte representa. O conflito entre o cinema e o saneamento básico já está exposto no título do filme. Até soa como parte da comédia. As duas coisas não se encaixam. Saneamento básico é um serviço obrigatório para garantir qualidade de vida, diferente do cinema. Da mesma forma que, como afirmam alguns personagens, não dá pra fazer filme sobre algo tão banal como tratamento de esgoto, “não é cinema”.

Esse debate denota um cenário em que, apesar dessa divergência, as duas partes são equivalentemente relevantes, pela presença frequente de seus elementos em vários aspectos da vivência dos moradores. Se no começo a verba para o filme era sempre comparada a valores de suprimentos para a obra da fossa, no final, Marina está disposta a gastar R$ 3 mil, valor muito acima do planejado para o projeto, pra garantir os direitos autorais de uma música que não pode faltar na cena final. De repente, esse dinheiro deixa de ser um custo e passa a ser um investimento. A personagem considera o retorno para a comunidade, com o incentivo ao turismo que poderia ser convertido em um retorno financeiro suficiente para a realização da obra que motivou a produção do filme pra início de conversa.

Até que ponto Marina enxerga uma oportunidade para a cidade, ou se deixa levar pela beleza da cena? Vê a dramatização artística como uma necessidade?

Ressurgimento

Em 2025, Saneamento Básico ganhou uma nova versão restaurada em 4k, e foi relançado nos cinemas no mês passado. O filme ganhou vida nova com as premiações de Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui, e Wagner Moura, em O Agente Secreto, foi redescoberto pelo público brasileiro e despertou reconhecimento internacional, 18 anos depois de seu lançamento.

Segundo dados da Ancine, o filme teve 190.656 espectadores em 58 salas de cinema do Brasil, em 2007. A bilheteria rendeu um total de R$ 1,5 milhão.

Saneamento Básico, o Filme está disponível na Netflix e no Globoplay.