
Estava planejando esse texto há alguns meses. O aniversário de cinquenta anos de um álbum que consegue se manter relevante depois de todo esse tempo sempre é um marco, e Sabotage, o sexto disco do Black Sabbath, lançado em 28 de julho de 1975, se posiciona nesse lugar. É, provavelmente, o pico criativo da banda, que conseguiu aliar tantas camadas em um trabalho sólido e que nunca se perde em meio a essas nuances.
Pensei em focar nesse aspecto e nos embates com o empresário que inspiraram as composições do grupo na época, mas falar do Sabbath nos últimos dias só pode levar a um tópico: Ozzy Osbourne. O lendário vocalista da maior banda de heavy metal de todos os tempos nos deixou na última terça-feira (22). Uma dor que ainda é compartilhada por milhões de fãs ao redor do mundo, mas que é confortada pelo legado imortal da figura inigualável de Ozzy. Uma figura que não se sustenta somente por anedotas, mas pelo seu trabalho como cantor e compositor. Uma obra pessoal que é ofuscada pela personalidade irreverente, mas que teve um impacto imenso e viveu um ápice em ‘Sabotage’.
Ozzy alcança notas inimagináveis na comparação com seus outros trabalhos, anteriores e posteriores. Logo na abertura, com Hole in the Sky, uma voz aguda e ávida entrega o cartão de visitas, acompanhando uma sequência de notas que parece se responder do guitarrista e líder da banda, Tony Iommi.
A voz de Ozzy foi, muitas vezes, subestimada, por não seguir determinados padrões técnicos que o rock nunca teve, mas que muitos fãs de metal aprenderam a exigir para quem queria cantar algo mais melódico. A própria capacidade do vocalista construir essas melodias era minimizada, uma atuação que requer muita sensibilidade e denota o dom de um músico que não teve acesso à teoria na sua formação. Se em diferentes ocasiões Ozzy apenas seguia os riffs de Iommi, como em Iron Man e N.I.B., em outros momentos ele fazia o próprio passeio e se transformava em pioneiro, assim como os outros membros da formação original do Black Sabbath – Tony Iommi, Geezer Butler (baixista) e Bill Ward (baterista).

Pedra fundamental
A linha reta da melodia vocal de Symptom Of The Universe, que parece apenas gritar ou falar a letra, é uma pedra fundamental para o subgênero thrash metal tanto quanto os riffs velozes e pesados de bateria e guitarra da canção. Uma espécie de marco zero da New Wave Of The British Heavy Metal. Um tipo diferente de peso para uma banda que costumeiramente se apoiava no doom metal e stoner rock, estilos mais cadenciados.
A abrangência do que o Sabbath é capaz de fazer não se mostra apenas com uma variedade na música pesada, mas também na capacidade da banda transitar de um ritmo frenético para um final com toques de Bossa Nova para terminar a terceira faixa do álbum. A experimentação com guitarras e sintetizadores ajudam o disco a fazer essa mescla de forma muito natural, sem perder um fluxo de todas essas ideias que o grupo coloca em cima da mesa.
Psicodelismo
Dentro desses experimentos, Ozzy aparece com um toque especial em Am I Going Insane?, que segue a partir de um riff de sintetizador composto pelo frontman. Na época, Ozzy era entusiasta desse estilo psicodélico com instrumentos eletrônicos e já havia contribuído para o Sabbath com Who Are You?, no disco anterior, Sabbath Bloody Sabbath, de 1973.
Pra além do brilhantismo melódico, expressado no vocal e instrumental, Ozzy escreveu parte da letra de The Writ, faixa que encerra o álbum e é a composição lírica mais poderosa de sua carreira. Um expurgo dos sentimentos da relação tóxica com o empresário Patrick Meehan, que explorou o trabalho da banda no auge do sucesso comercial.
“Você me comprou e me vendeu com suas palavras mentirosas As vozes no convés que você nunca ouviu vieram à tona Sua estupidez finalmente conseguiu se divertir com uma arma Um pai envenenado que envenenou o próprio filho”.
Sabotage é símbolo da relevância de Ozzy Osbourne para o rock e a música pop, apresentando as diferentes facetas de um dos maiores músicos da história do gênero, mas que sempre teve dificuldade para reconhecer o seu tamanho. Como escreveu em sua autobiografia: “Quanto ao que vão colocar na lápide, não tenho nenhuma dúvida. Se fecho os olhos, consigo ler: Ozzy Osbourne, nascido em 1948. Morreu, tanto faz. Ele arrancou a cabeça de um morcego.”
Um ícone que não entendia o que era ser isso e acabou convencendo muita gente de que, realmente, se resumia a meia dúzia de palhaçadas publicadas em jornais. Histórias que são relembradas até no obituário, como ele mesmo previu. Mas Ozzy vai além, e merece respeito não só pela sua personalidade, como pela genialidade e influência atemporal. Ele provavelmente iria rir dessa última frase, mas faz parte.



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