
Santos, cidade moldada por ondas de imigração, aprendeu a temperar sua identidade com sotaques e sabores vindos de todo o mundo. Italianos, portugueses, espanhóis, japoneses e tantos outros deixaram marcas na arquitetura, nos hábitos e, sobretudo, na mesa. Hoje, na cena gastronômica, um detalhe chama atenção: os dois restaurantes mais celebrados de comida italiana têm como comandantes um português e um espanhol. Babbo Américo e Cantina di Lucca provam que, na cozinha, a maestria não fala apenas a língua da origem, mas a do carinho com que a comida é feita, entregando pratos de dar orgulho a qualquer avó, abuela ou nonna.
A Cantina di Lucca, da família do espanhol Servando Reinaldo Rodriguez, e o Babbo Américo, do português Américo Vieira, estão no topo da preferência dos clientes que buscam massas artesanais, molhos e sobremesas clássicas. Ambas as famílias de empresários chegaram a Santos por caminhos diversos, mas encontraram no sabor da Itália um passaporte para o sucesso.
Servando Rodriguez chegou ao Brasil em 1957, aos 12 anos, acompanhado da mãe e de um irmão. O garoto espanhol descobriu sua vocação entre mesas e balcões. Começou como garçom, profissão que exerceu com orgulho e nostalgia que perduram até hoje. “Ele ainda recorda com saudosismo os tempos de garçom”, conta a filha e sócia, Érika Rodriguez. “O aprendizado transcendia o simples atendimento”.
Em 1974, aos 29 anos, empregou-se numa cantina tradicional de Santos. Lá permaneceu 27 anos, período em que se aprofundou na culinária italiana. Não se tratava de um emprego comum. Servando tornou-se sócio do estabelecimento e mergulhou na cultura gastronômica da Toscana. A proprietária original havia nascido em Firenze e trazia na bagagem receitas centenárias de sua família.
Durante quase três décadas, o espanhol aperfeiçoou técnicas de massas artesanais, aprendeu o tempo exato de cozimento de cada prato, memorizou as proporções ideais de temperos e molhos. Quando finalmente decidiu empreender, carregava uma “enciclopédia culinária” na memória.
Em 2001, Rodriguez deparou-se com um casarão de dois andares na Rua Tolentino Filgueiras. A construção fica no coração do Gonzaga, bairro tradicional de Santos que concentra boa parte da vida noturna e gastronômica da cidade. A casa residencial exigiu reforma completa para se transformar em restaurante. O projeto incluiu cozinha profissional, salão amplo e ambiente que remetesse às lembranças toscanas.
Em dezembro de 2002, nasceu a Cantina di Lucca. O nome prestava dupla homenagem. Lucca é capital da província toscana, região que Rodriguez visitou diversas vezes e pela qual nutria paixão declarada. Coincidentemente, Érika tem um filho chamado Lucas, o que tornava a escolha ainda mais simbólica para a família.
“A região da Toscana, realmente, é muito bonita. Não só pela beleza, mas a topografia, a arquitetura, as tradicionais casas com janelas verdes, as toalhas de xadrez, tudo. Nós somos apaixonados”, explica a sócia.
A filha Érika Rodriguez formou-se em jornalismo, mas deixou a profissão original quando o pai a convidou para trabalharem juntos. “Antigamente não se falava em ‘transição de carreira’, mas foi isso que fiz”, diz.
A parceria funciona há 23 anos. Érika trouxe visão moderna de gestão, enquanto Servando mantém o domínio técnico da cozinha e o relacionamento com clientes antigos.
ENTRE ITÁLIA E BRASIL
Américo Carreira Vieira chegou ao Brasil vindo de Portugal e encontrou trabalho como garçom na antiga ‘Cantina Firenze’, ao lado de dois colegas. A proprietária, uma senhora italiana de nome Liliana, adoeceu em 1967 e decidiu retornar à Itália. Vendeu o estabelecimento aos três funcionários.
Vieira herdou o cardápio, mas não se limitou às receitas. Aventurou-se em criações próprias que respeitavam a base técnica italiana, incorporando toques pessoais. Em 1971, inventou a ‘pizza de champignon’ que se tornaria marca registrada em Santos. A inspiração veio dos universitários da primeira turma de medicina da Fundação Lusíada.
Os estudantes frequentavam o estabelecimento e pediam pratos diferentes dos habituais. Américo decidiu criar uma pizza que combinasse ingredientes populares da época. Misturou coquetel de camarão – prato considerado elegante nos anos 70 –, champignons, salame e muçarela. O resultado agradou tanto que se espalhou pela cidade e virou referência.
A receita da pizza exemplifica o método de trabalho de Américo: inspirar-se nas tradições da Itália, enquanto adapta sabores ao paladar brasileiro. “A gente sempre tenta fazer essa mistura com o Brasil e com a comida caiçara também”, explica o filho, Américo Júnior, que também é sócio do Babbo Américo.
O restaurante mudou de endereço algumas vezes ao longo das décadas. A sociedade original dos três garçons enfrentou mudanças naturais. Em 2014 os caminhos se separaram devido a divergências de visão empresarial. Américo ficou com o estabelecimento, acompanhado pelos filhos que já trabalhavam no negócio.
BRINCADEIRA QUE VIROU TRABALHO
A mudança societária trouxe também novo nome. Babbo Américo presta homenagem ao patriarca. “Babbo significa pai na região da Toscana”, explica Júnior.
Ele finaliza contando que cresceu entre panelas, fornos e receitas. Ganhou avental de garçom em miniatura. “Quando ainda era criança, eu brincava no salão durante o funcionamento do restaurante e a brincadeira virou trabalho”, comenta. O pai jamais impôs a sucessão, mas o filho desenvolveu paixão natural pelo ramo. Cursou hotelaria e gastronomia, fez estágios em São Paulo e viajou para ampliar conhecimentos técnicos.


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