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Recicle chega à 27ª edição e consolida modelo pioneiro de moda sustentável

12/02/2026 Isabela Marangoni
Reprodução/Redes Sociais

Há 14 anos, a lojista Marina Menezes transformou uma dúvida recorrente das clientes em um dos projetos mais consistentes de moda sustentável da Baixada Santista. O Recicle nasceu de uma pergunta simples — e provocadora: “O que fazer com uma roupa que não uso mais, mas também não faz sentido doar ainda?” A 27ª edição acontece de 24 a 28 de fevereiro, das 10h às 19h, na loja Marina Menezes Moda (Rua Paraguai, 155, Gonzaga).

À frente do espaço há 38 anos, Marina percebeu que muitas peças esquecidas nos armários mantinham qualidade, bom tecido e modelagem atemporal — descartadas não por desgaste, mas pelo ritmo acelerado da indústria da moda. A partir dessa constatação, estruturou o Recicle com base em um tripé claro: ambiental, social e econômico. “O Recicle é ambiental porque prolonga o tempo de uso da roupa; é social porque parte do valor arrecadado vai para projetos da cidade; e é econômico porque movimenta o armário da cliente e a loja em períodos de entressafra”, resume.

Realizado tradicionalmente em fevereiro e agosto — momentos estratégicos do calendário comercial — o evento ocupa justamente o intervalo entre coleções. “É quando tenho menos peças novas e a cliente também está mais aberta a reorganizar o armário”, explica.

Curadoria e preços acessíveis
O funcionamento é simples — mas passa por triagem criteriosa. As clientes doam peças de qualquer marca ou origem, que são avaliadas tecnicamente. “A primeira pergunta é: está bom ou não está bom? Gostar ou não gostar é outra história”, afirma Marina.

Itens excessivamente datados, danificados ou fora do perfil da loja são descartados. As peças aprovadas recebem identificação da doadora e são vendidas a preços simbólicos: camisetas entre R$ 10 e R$ 15; vestidos de R$ 50 a R$ 80; peças especiais podem chegar a
R$ 250. “Já vendemos até vestido de noiva”, conta.

Atualmente, o Recicle reúne mais de 600 doadoras cadastradas. Só nesta edição, 86 mulheres participaram. Durante cinco dias, a loja se transforma: são mais de 2.500 itens vendidos e centenas de visitantes. Metade do valor arrecadado é destinada a projetos sociais; a outra metade retorna às doadoras em crédito para compras futuras — um mecanismo que fecha o ciclo da economia circular.

Impacto social
O Recicle prioriza iniciativas ligadas à arte, cultura e educação — especialmente projetos que promovam autonomia para crianças e jovens. Entre os apoiados estão o Belas Mãos da Esperança, a Oficina do Futuro (TAVMA) e o Pés Livres, voltado à formação musical. “A ideia é apoiar projetos que ajudem essas crianças a se tornarem independentes profissionalmente”, diz.

Com o slogan “usar muito bem aquilo que você não usa mais”, o evento ultrapassa o conceito de bazar e propõe uma revisão de mentalidade sobre consumo, valor e desapego.

Peças de segunda mão
Se o modelo já se consolidou, o maior desafio ainda é cultural: o preconceito com peças de segunda mão.

Marina provoca. “Se você pensar numa roupa comprada numa grande rede, quantas mãos passaram por ela até chegar à arara? Às vezes, a peça que estava no armário da cliente é muito mais confiável”.

A curadoria privilegia versatilidade e qualidade. “Quando você tem roupa demais, fica confusa. Qualidade e versatilidade permitem criar vários looks com menos peças”.

O desapego, segundo ela, se torna mais natural quando há transparência sobre o destino das peças. “Elas não queriam doar para qualquer pessoa. Quando sabem que vai ajudar alguém, o desapego acontece”.

Mobilização
A comunicação é outro diferencial. Peças especiais são apresentadas em vitrines e vídeos antes do evento. As doações e entregas aos projetos também são registradas e divulgadas. “A gente mostra tudo. Isso gera confiança”.

O público acompanha essa evolução. “Hoje as pessoas esperam o Recicle. Levam amigas, indicam”. Para Marina, o consumo consciente encontra eco especialmente entre os jovens. “A nova geração já vem com esse conceito”.

Durante o evento, também há arrecadação de tampinhas e lacres. Nesta edição, o material será destinado a um projeto da maçonaria que subsidia cirurgias de crianças com lábio leporino e tratamentos complexos no exterior.

Transformação
O impacto do Recicle reverbera em outras iniciativas, como o Arteiras do Bem, que mobiliza clientes na produção e venda de cartões artesanais a preços populares. A ação já viabilizou a produção de 70 “naninhas do bem”, a compra de um consultório odontológico portátil para a Missão Marajó e agora arrecada recursos para um desfibrilador na Amazônia.

Para Marina, a lição é direta — e prática. “Às vezes a gente acha que precisa fazer algo grandioso para mudar o mundo. Mas, com algo simples e constante, muitas vidas são transformadas”.