
A Livraria Realejo se transforma em um ponto de encontro entre literatura, música e memória cultural nesta sexta-feira (6), às 18h. Os escritores Gaía Passarelli e Rodrigo Carneiro participam de um lançamento conjunto que, embora reúna dois livros distintos, revela afinidades profundas entre as obras.
Além da sessão de autógrafos, os autores promovem um bate-papo sobre Deslumbre – Histórias de obsessão musical e Jardim Quitaúna: Crônicas de paixão, política e cultura pop. Os dois títulos dialogam a partir de um mesmo território: a memória cultural ligada à música, às cenas urbanas e às experiências que marcaram gerações.
Para Carneiro, tanto sua obra quanto a de Gaía compartilham um propósito semelhante: registrar vivências culturais que muitas vezes ficam à margem da história oficial. “Não estamos fazendo exercícios de nostalgia. Estamos fazendo exercícios de registro de memória num país que tem inúmeros problemas com a própria memória”, afirma.
O recorte passa por ambientes underground, cenas noturnas e movimentos culturais que ajudaram a moldar a vida de muitos jovens nas últimas décadas do século XX.
Segundo ele, Jardim Quitaúna não é exatamente uma autobiografia, mas o relato de alguém profundamente atravessado pela cultura pop. “É a história de alguém que teve a vida mudada e definida pelos movimentos culturais de juventude, pela música e pela arte”, explica.
Deslumbre, de Gaía Passarelli, também parte da memória pessoal para reconstruir uma trajetória cultural. Para a autora, existe hoje um movimento crescente de registro dessas histórias, especialmente ligadas à música brasileira. “A gente tem a sensação de que tudo está registrado na internet, mas não está”, observa.
Durante a pesquisa para o livro, ela percebeu essa lacuna ao buscar informações sobre o Espaço Retrô, antiga casa de shows de São Paulo. “Fiquei impressionada com a pouquíssima informação que existe na internet sobre um lugar tão importante”, lembra.
Para Gaía, o livro cumpre justamente essa função de preservação. “O que está na internet pode desaparecer. O livro é palpável, ele fica”.
As obras
No caso de Carneiro, o livro surgiu a partir de um convite da editora Terreno Estranho e marca sua estreia na prosa. “O Jardim Quitaúna é uma encomenda afetuosa”, conta.
Em seu terceiro lançamento, o autor assume um tom memorialista para narrar a trajetória de alguém fascinado, desde a infância, pelas produções artísticas, midiáticas e subterrâneas.
Com Gaía, o ponto de partida também foi um convite da mesma editora. A relação com o jornalista e radialista Fábio Massari, porém, vinha de antes, quando ela apresentou programas na MTV Brasil. “Ele veio falar comigo dizendo que via o meu programa como uma continuidade do trabalho que ele tinha feito na MTV anos antes. Eu fiquei super honrada”, recorda.
Em Deslumbre, Gaía mergulha na própria formação cultural para contar como a música atravessou — e moldou — sua vida. Do mítico Espaço Retrô ao Peel Acres, passando pelo after-hours Hell’s Club e pelos corredores da MTV Brasil, a autora traça uma linha do tempo de descobertas musicais de uma geração que cresceu entre os anos 1980 e 2000.
Mais do que uma viagem afetiva, o livro propõe uma reflexão sobre o momento em que a paixão pela música deixa de ser apenas um gosto pessoal e passa a se tornar uma forma de existir no mundo.
Apesar do convite inicial, Gaía conta que hesitou antes de aceitar escrever novamente sobre música. Com o tempo, percebeu que o projeto dialogava com seus livros anteriores. “O Deslumbre acabou se tornando a parte final de uma trilogia não planejada”, explica.
O conjunto inclui Mas Você Vai Sozinha (2016), sobre sua experiência como repórter de viagem, e Tá Todo Mundo Tentando: Histórias para Ler na Cidade (2024), centrado na vida em São Paulo durante a pandemia. “Os três livros exploram essa intersecção entre memória e jornalismo cultural, mas isso aconteceu de forma espontânea”, diz.
Histórias que marcaram
Em Jardim Quitaúna, Carneiro revisita episódios curiosos da vida cultural brasileira. Um dos mais marcantes envolve um protesto realizado no final dos anos 1980, na região da Luz, em São Paulo, que reuniu punks, sindicalistas e ativistas de direitos humanos.
O momento mais inesperado veio de onde ninguém imaginava. “Para acabar com toda a sisudez do protesto, garotas do sexo da região subiram ao palco e cantaram um sucesso recém-lançado da Xuxa. Elas foram as mais punk da história toda”, conta.
Outro episódio que ele guarda com carinho é o encontro com um de seus ídolos. “Eu tive um encontro com Joe Strummer, do The Clash. Foi a selfie não feita”, diz.
Na época, ele carregava uma câmera analógica, mas não pensou em registrar o momento. “A gente simplesmente conversava. Era outra relação com esses encontros”.
Já em Deslumbre, Gaía organiza o livro em quatro momentos de sua formação cultural. O primeiro aborda o contato com tribos urbanas paulistanas ainda na adolescência, quando começou a frequentar o Espaço Retrô aos 13 anos.
O segundo mergulha na descoberta da música eletrônica, que influenciou amizades, relacionamentos e até sua carreira. O terceiro revisita sua passagem pela MTV.
Mas a história que ela considera mais marcante aconteceu anos depois, durante um período em que estava em Londres para um curso.
Pesquisando sobre o lendário radialista britânico John Peel, ela descobriu que a cidade natal dele preparava um centro cultural em sua homenagem. “Mandei um e-mail meio sem esperar nada e eles responderam dizendo que eu seria a primeira jornalista a visitar o lugar”, conta.
A visita acabou se transformando em um encontro inesperado. “Acabei sendo convidada para conhecer a casa da viúva do John Peel, o estúdio histórico dele, com toda a coleção de discos. Foi uma experiência muito especial”.
A reportagem publicada na época passou quase despercebida, mas ganhou novo significado ao ser incorporada ao livro. “Depois poder registrar isso no livro foi ótimo. É a prova de que aquela história aconteceu”.
Retrato de geração
Para os autores, a cultura pop desempenha um papel fundamental na formação das pessoas e na construção da memória coletiva.
Carneiro acredita que a música funciona como trilha sonora da vida. “A música é base da formação das pessoas. São trilhas sonoras para experiências que permanecem”.
Ele lembra que muitos de seus primeiros contatos com certos gêneros vieram de lugares inesperados. “Meu primeiro contato com jazz foi vendo Dizzy Gillespie na televisão, na casa da minha madrinha, numa TV em preto e branco”, recorda.
Gaía acrescenta que a cultura pop também funciona como espaço de encontro e pertencimento. “A música é um lugar aglutinador, onde você encontra a sua turma”.
Hoje, esse processo acontece de forma diferente, muitas vezes mediado pelas redes sociais. “Antigamente você precisava sair de casa, pegar ônibus e ir a um lugar da cidade para encontrar essas pessoas. Hoje o contato é mais fácil, mas continua existindo essa busca por pertencimento”.
Memória que permanece
Ao final, os autores dizem esperar que os livros despertem interesse por histórias culturais que muitas vezes acabam esquecidas. “Eu quero que as pessoas saibam que esses lugares e movimentos existiram”, afirma Gaía. “E lembrar que música importa, continua importando e sempre vai importar”.
Carneiro acrescenta que o maior retorno para um escritor é perceber a identificação do leitor. “Quando há uma relação direta e genuína entre o leitor e o que você escreve, é aí que tudo faz sentido”.


Fantástico! Trabalhei com a Gaía na MTV e ela é um poço de cultura, conhecimento, generosidade, e uma das melhores colegas de trabalho que eu já tive!