Cena

Ramon Arzerra: arte que reflete paixão pela natureza

22/11/2025 Da Redação
Claudio Vitor Vaz

Fascinado desde a infância pelo universo dos insetos e animais, especialmente da fauna brasileira, Ramon Arzerra, 41, dedica-se a recriá-los em desenhos, pinturas e esculturas em madeira e cerâmica. Sua obra se destaca pelas cores intensas e formas lúdicas, que encantam pessoas de diferentes gerações.

Designer gráfico de profissão, artista plástico por necessidade de expressão e biólogo diletante (cursou três anos e meio da faculdade), Ramon cercou-se de objetos de estudo e inspiração em seu apartamento-ateliê, no Gonzaga: em aquários, potes e panelas, reproduzem-se peixes, caramujos, besouros, planárias e camarões d’água doce.

Na estante da sala, os livros de arte dividem espaço com os de zoologia; pelos cômodos, plantas, esculturas de animais em madeira, cerâmicas com figuras de insetos e telas e painéis figurativos, contendo pessoas e animais, tomam todos os cantos e as paredes coloridas.

“Passei boa parte da infância num apartamento ao lado do Canal 6, onde eu observava os peixes, pássaros, a fauna local, que apesar de controlada, florescia. São coisas que não dá para explicar, os animais sempre me chamaram a atenção, pela complexidade, por exemplo, os insetos são muito coloridos, dentro daqueles corpos tão pequenos, você vê a complexidade que é”, conta.

Interesse pelo mundo vegetal e animal também foi reforçado pelos hobbies de seus pais: “Minha mãe gostava muito de plantas; meu pai, de passarinhos e peixes, criava canários, curiós. E eu gostava de caçar larvas vivas de libélula nas plantas que meu pai comprava para decorar o aquário dos peixes, e as criava”.

Enquanto menino, Ramon também estava sempre cursando coisas diferentes, de histórias em quadrinhos a informática, e aprendeu a gostar de trabalhar tanto no computador quanto no manual.

Descobriu-se artista aos 14 anos, num aniversário em que tinha giz pastel oleoso e folhas à disposição dos convidados: “Eu nunca tinha pintado com pastel oleoso e comecei a pintar imagens que vinham à minha cabeça. Daí eu percebi que criar imagens não era só uma brincadeira, mas uma forma de me comunicar. As pessoas ficavam impressionadas com meus desenhos”.

Mas resolveu fazer biologia porque acreditava ser o curso que lhe daria sustentação financeira. “A arte, naquele momento, existia, eu já me entendia como artista, mas não que seria meu ganha-pão. Porém, após um ano e meio cursando, vi que não era o que eu imaginava, pois eu gostava de investigar, de fazer pesquisa de campo. Resolvi parar e iniciar o curso de design gráfico, em São Paulo, onde morei por cerca de dez anos, período em que estudei, trabalhei e aproveitei as diversas opções culturais.”

Num dos quartos do seu atual apartamento, convertido em ateliê, Ramon escuta música enquanto finaliza uma série de seis quebras-cabeças de pássaros, como araras e tucanos, direcionados ao público infantil. São peças bastante coloridas, de figuras recortadas em formas geométricas, pintadas com tinta acrílica e finalizadas com verniz atóxico.

“Sempre trabalho com animais da fauna brasileira, porque gosto que as peças sejam educativas. Quando falamos de animais com as crianças, elas se lembram do elefante, do leão, que não pertencem à nossa fauna. Por isso eu prefiro explorar a nossa biodiversidade que é tão rica”, explica o artista, que também pinta capivaras, onças e até dinossauros, outra paixão que traz da infância.

Sustentabilidade

Sua obra tem caráter sustentável: as esculturas são feitas com madeira de descarte, como troncos, quando tem poda de árvores pela Prefeitura. “Para as pinturas, também prefiro trabalhar com pedaços de madeira, como restos de pallets, que pego e monto um painel, acho que conto melhor uma história assim”, descreve o artista, que tem uma garagem cheia de material descartado, que pode ser utilizado em novas obras.

Ele conta que as esculturas e quebra-cabeças de animais surgiram na época da pandemia de Covid-19, quando passou a reutilizar madeira descartada para fazer painéis para suas pinturas: “ao preparar os chassis, sobravam alguns restos de madeira nos quais eu via formas de animais, e, assim, passei a fazer esses quebra-cabeças”.

Ao partir para esta série mais lúdica, Ramon sentiu que estava no caminho certo de sua busca artística, ao descobrir o que mais gosta de fazer: peças tridimensionais geométricas, e dá pistas de suas preferências artísticas e modo de enxergar a vida: “Minhas pinturas sempre foram geométricas, trago referências do brutalismo e do cubismo, e quando comecei a trabalhar com madeira, foi muito prazeroso construir tridimensionalmente as figuras que eu pintava”.

Além do trabalho como designer gráfico e artista visual, Ramon participa de feiras criativas, oficinas em escolas de ensino infantil e integra o coletivo La Santista, que reúne artistas visuais da Baixada, com o objetivo de colorir a Cidade.

Outro desafio profissional que destaca foi a encomenda de um painel e de um mural de 7×21 metros, no escritório em que trabalhava na Vila Madalena, em São Paulo. Em Santos, diz sentir falta de mais feiras e eventos de artes plásticas: “Se houvesse mais incentivo, eu poderia dizer que vivo de arte, atualmente eu faço minha arte, mas dependo do trabalho como designer gráfico”.

Enquanto isso, Ramon continua se dedicando à investigação artística, apesar desta não ser tão desafiador ou espetacular como descobrir como funciona a audição do louva-deus para fugir de um morcego, “acho o mundo natural mais espetacular do que minha investigação artística”.

Em tempo: seu nome artístico, Ramon Arzerra, vem da abreviação de sobrenomes da mãe e do pai, para ninguém ficar com ciúmes: Ramon Arce Bezerra.

Reportagem realizada em 26 de maio de 2025. @arzerra.

Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla está publicando um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio. A exposição coletiva dos 10 artistas está em cartaz na Galeria Braz Cubas, no Centro de Cultura Patrícia Galvão (Av. Pinheiro Machado, 48, Vila Mathias, em Santos) até o próximo dia 28. Visitas das 13 às 18 horas.