
Um projeto nascido do encontro entre o empreendedorismo feminino e o impacto social está transformando histórias e dando visibilidade a mulheres de comunidades em situação de vulnerabilidade em Santos. Idealizada por Priscilia Queiroz, fundadora do Instituto Mulheres que Decidem, em parceria com a empreendedora Josie Tostes, da marca de bolsas NYT, a ação batiza modelos exclusivos com o nome de mulheres atendidas pela ONG — e oferece a elas a oportunidade de gerar renda a partir das vendas.
“O projeto só fez sentido para mim quando entendi que o propósito era homenagear mulheres invisíveis à sociedade”, afirma Priscilia. A iniciativa teve início com um processo seletivo que capacitou 150 mulheres em temas de desenvolvimento pessoal e digital. Dentre elas, dez foram escolhidas para dar nome às bolsas.
Cada peça carrega uma história — e um nome: Ana, Adriana, Sonia, Rose, Geovana, entre outras. “Elas ficaram eufóricas quando souberam. Muitas disseram que nunca haviam sido homenageadas nem dentro de casa”, conta Priscilia. “Foi a primeira vez que se sentiram vistas”.
A designer Josie Tostes foi responsável por criar cada modelo, inspirando-se no estilo e na trajetória de cada homenageada. “Estudei os perfis, pensei no que usariam, no tamanho do braço, na altura, no estilo… Quis que cada bolsa representasse quem elas são.
O lançamento ocorreu durante o Expodec – Feira da Empreendedora Decidida, no Santos Convention Center, no último mês. As homenageadas participaram de um desfile com roupas criadas especialmente para a ocasião. “Naquele momento, elas entenderam que realmente tinham uma coleção com seus nomes. Foi transformador para todas nós”, recorda Priscilia.
Agora, o projeto avança para uma nova fase: as mulheres poderão atuar como afiliadas e revendedoras das bolsas, recebendo comissões por vendas diretas ou por indicação. “Queremos que elas façam dinheiro. Não importa se vendem o modelo com seu nome ou de outra colega. O que importa é que enxerguem essa nova possibilidade de renda e autonomia”, ressalta Priscilia. As bolsas estão disponíveis no site www.nyt.com.br e no Instagram @use.nyt.

Inspiração
Alexsandra Cíntia de França é confeiteira e padeira artesanal. Mineira de origem, criada em Santos, encontrou na cozinha uma forma de superar perdas e recomeçar. “Minha mãe fazia uma mesa linda com quase nada. Foi aí que me apaixonei pela culinária”, lembra. Hoje, é dona do Sabores da Alê (@saboresdaale73), em que trabalha com produtos artesanais da culinária mineira.
Sua história inspirou um dos modelos da coleção. “É um sonho do qual não quero acordar”, diz. A peça carrega a memória de um momento marcante: no mesmo dia em que perdeu a mãe, também ficou sem casa e passou cinco meses em um abrigo. “Foi o amor pela cozinha e o apoio do Instituto que me fizeram levantar”, afirma.
Andréia Tavares Vieira Dias Silva é costureira e comanda o ateliê Costurando Sonhos (@ateliecosturandosonhos02), onde cria bolsas, nécessaires e carteiras artesanais. Após enfrentar perdas emocionais e episódios de desvalorização profissional, mergulhou na depressão. “Por fora eu parecia bem, mas por dentro estava no fundo do poço. Foi na costura que reencontrei forças”. Selecionada para o projeto, teve sua história eternizada em uma bolsa. “Ela é super meu estilo: elegante, delicada e empoderada”.
Margareth da Silva Lopes é massoterapeuta há 15 anos e fundadora da Festa e Spa (@festaespa), empresa que oferece massagens nos pés durante festas e eventos. Mais do que alívio físico, Margareth percebeu o impacto emocional do toque. “Muitos falam que é como um abraço demorado, um cuidado que reacende o ânimo para voltar à pista de dança.” Ao receber a homenagem com uma bolsa que leva seu nome, ela se emocionou. “Na correria, às vezes esqueço do meu lado feminino. A bolsa reacendeu isso em mim. Representa quem eu sou”.
Quando o social se transforma em missão
O projeto é fruto de um trabalho profundo desenvolvido pelo Instituto Mulheres que Decidem, criado oficialmente em 2018, com raízes em uma trajetória pessoal marcada pela dor e pelo propósito.
Priscilia fundou sua primeira ONG aos 26 anos, após perder o marido, vítima de uma bala perdida na rodoviária de Santos. Um mês depois, iniciou ações assistenciais em comunidades da região “Entendi que precisava desenvolver projetos que realmente capacitassem as pessoas para mudar suas vidas”, afirma.
Foi então que assumiu o movimento Mulheres que Decidem, transformando-o em Instituto. Desde então, já realizou projetos com marcas importantes, sempre com foco em educação e geração de renda.
Na iniciativa atual, a primeira fase Mulher Decidida Digital ofereceu capacitação a 150 mulheres de comunidades em Santos e São Vicente. O processo começou com imersões de autoconhecimento e cura emocional. “Não adianta ensinar marketing digital para uma mulher emocionalmente destruída”, defende Priscilia. “Muitas carregavam traumas de abusos, violência doméstica, abandono. Precisávamos acolher isso primeiro”.
Hoje, essas mulheres já empreendem com confeitaria, semijóias, bordado em papel, entre outros. A bolsa surge como símbolo de reconhecimento e autoestima.
Para ela, o trabalho social é sua missão de vida. “Transformar a dor em propósito foi minha virada. E se nada mais der certo, uma coisa eu nunca vou deixar de fazer: trabalhar pelo social”.


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