Cena

Oscar Peterson, um gênio do jazz que fez o piano cantar

15/08/2025 Gustavo Klein
Divulgação

Oscar Peterson é lembrado como um dos maiores pianistas da história do jazz. Seu domínio técnico e sensibilidade rítmica o colocaram no mesmo patamar de ícones como Art Tatum, Bud Powell e Bill Evans, mas com uma assinatura própria: a combinação de velocidade assombrosa, articulação cristalina e um swing que parecia natural como respirar. Chamado por Duke Ellington de “Maharaja do teclado” e apelidado por Louis Armstrong como “o homem com quatro mãos”, Peterson fez do piano uma extensão de sua própria expressão musical.

Nascido e criado em Montreal, em um ambiente musicalmente rico, Peterson cresceu ouvindo desde música clássica até boogie-woogie e swing, absorvendo influências diversas que moldariam seu estilo. Seu pai, que tocava trompete amador, incentivou a prática musical desde cedo, impondo disciplina no estudo. Ainda adolescente, Peterson já chamava atenção em concursos locais e programas de rádio.

Sua formação clássica foi determinante. Estudou com Paul de Marky, um pianista húngaro ligado à tradição de Franz Liszt, o que lhe deu um domínio técnico raro no jazz. Essa base permitiu que explorasse o teclado com uma clareza de notas e uma independência de mãos que poucos alcançaram. Ainda jovem, se apaixonou pelo som de Art Tatum — referência máxima de virtuosismo no piano jazzístico — e passou a desenvolver um repertório e um vocabulário harmônico cada vez mais complexos.

O salto para a cena internacional veio em 1949, quando o empresário Norman Granz o descobriu em uma apresentação de rádio e o convidou a integrar as turnês do Jazz at the Philharmonic. A partir daí, Peterson se tornou figura central nos grandes concertos de jazz, dividindo palco com nomes como Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie e Count Basie. Sua presença nos palcos era marcada pela postura aparentemente descontraída, mas por uma execução de precisão cirúrgica.

Na década de 1950, consolidou a formação de seu trio clássico com Ray Brown no contrabaixo e Herb Ellis na guitarra — depois substituído pelo baterista Ed Thigpen. Essa configuração, com grande entrosamento e repertório variado, produziu gravações que hoje são referência, como Night Train (1963), álbum que mistura standards, blues e composições próprias, incluindo a marcante “Hymn to Freedom”. Essa peça, simples e poderosa, tornou-se um símbolo do movimento pelos direitos civis, sendo tocada em cerimônias e eventos de luta pela igualdade racial.

Outro trabalho emblemático foi Canadiana Suite, de 1964, uma homenagem ao seu país natal. O álbum é composto por peças que evocam paisagens canadenses — das pradarias do oeste às movimentadas ruas de Montreal — e demonstra não apenas seu virtuosismo, mas também sua habilidade como compositor.

Durante as décadas seguintes, Peterson manteve um ritmo intenso de gravações e turnês. Trabalhou com alguns dos maiores nomes do jazz, incluindo Stan Getz, Milt Jackson e Joe Pass, e deixou centenas de discos, tanto em estúdio quanto ao vivo. Seu repertório cobria desde o Great American Songbook até improvisações ousadas sobre estruturas harmônicas complexas.

A crítica muitas vezes se impressionava não só com a técnica, mas com a capacidade de fazer o piano “cantar”. Suas improvisações eram fluidas, sempre equilibrando clareza melódica com sofisticação harmônica. Ele conseguia alternar entre passagens de incrível velocidade e momentos de delicadeza extrema, sem perder o balanço.

Peterson também teve papel relevante como educador. Em 1960, fundou a Advanced School of Contemporary Music em Toronto, que se tornou um centro de formação para jovens músicos de jazz da América do Norte. Mais tarde, atuou como professor na York University, transmitindo sua filosofia de disciplina e paixão pela música.

Sua trajetória, no entanto, não esteve livre de desafios. Em 1993, sofreu um derrame que afetou a coordenação da mão esquerda. A limitação física o obrigou a adaptar seu estilo, reduzindo a complexidade técnica, mas sem abandonar os palcos. Mesmo com menor agilidade, sua musicalidade e presença continuavam a emocionar plateias.

Ao longo da carreira, acumulou inúmeros prêmios e reconhecimentos: oito Grammys, o prêmio pela carreira (Lifetime Achievement Award) e a mais alta condecoração civil do Canadá, Companion of the Order of Canada. Recebeu também o Praemium Imperiale, concedido pelo Japão a artistas de destaque internacional, e mais de uma dúzia de doutorados honorários.

Peterson morreu em 2007, deixando um legado monumental. Sua discografia é uma aula de técnica, criatividade e sensibilidade. Pianistas de várias gerações continuam a estudar sua obra, seja para compreender a precisão de suas escalas relâmpago ou para absorver a maneira como construía narrativas musicais em improvisos.

No universo do jazz, Peterson permanece como um pilar: alguém que uniu a exigência da perfeição técnica à capacidade de transmitir emoção pura. Para muitos, ele não apenas tocava jazz — ele o fazia soar como se fosse inevitável, como se o piano tivesse sido inventado para isso.