Cena

Os muitos véus na arte de Lidia Malynowskyj

02/08/2025 Da Redação
Claudio Vitor Vaz

Para muitos artistas visuais, o ponto de partida é o papel em branco, a tela vazia, a tabula rasa que será preenchida com linhas, formas e cores, mas não para a santista Lidia Malynowskyj (pronuncia-se “malinóviski), de 36 anos. Para ela, voltar ao branco, embranquecer, apagar, encapsular, deixar opaco interessa mais.

Com sua arte, Lidia não quer apenas capturar a paisagem, a forma ou o volume das coisas, mas encobri-las e sugeri-las através de muitos véus, de muitas camadas. Sua pesquisa sobre o branco vem desde a faculdade de Artes Visuais na Santa Marcelina (2008 a 2011), em São Paulo, onde morou por cinco anos e teve contato pela primeira vez com o gesso.

O tema persistiu durante o mestrado, feito entre 2017 e 2019, pelo programa de pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), e está sendo aprofundado no doutoramento desde 2020, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com uma tese intitulada “O Branco – uma antologia sobre experiências, assepsias e realidades espaciais”.

Entre os pensadores que a conduzem nessa jornada, está David Batchelor, autor do livro “Cromophobia”, no qual, descreve a artista, ele “fala sobre como a cultura ocidental tem medo da cor, e a gente nem percebe, faz uma análise desde os utensílios e eletrodomésticos, onde o branco é o padrão, e como isso afeta o nosso livre arbítrio, como um filtro que conduz o nosso olhar”.

No doutorado, sob orientação do professor e artista plástico Ernesto Giovanni Boccara, Lidia investiga as implicações da cor branca sobre a cultura ocidental, e evoca conceitos filosóficos dentro de contextos sociais. Ela conta que Boccara quis orientá-la porque é um pintor que trabalha com muitas cores, e ele gostou do desafio de uma pesquisa de cinco anos somente sobre uma determinada cor.

A escultora não sabe precisar quando o branco entrou em sua pesquisa: “está no meu trabalho desde sempre, demorei a perceber isso. Eu achava que meu interesse principal era a paisagem, que o branco veio sem querer por causa do principal material que utilizo, que é o gesso. No mestrado, vi que era mais do que isso, que eu tinha uma quase obsessão pela cor branca”.

Visitamos o ateliê de Lidia numa tarde chuvosa de fim de abril, após o retorno da artista de uma das aulas que ministra no ensino fundamental de Santos. Ela produz suas peças sobre uma bancada montada debaixo de uma grande janela, num dos quartos no apartamento que divide com o marido, o músico e radiologista Adriano Afonso, e um cão da raça beagle, chamado Snoopy, no bairro do Boqueirão.

Lidia nasceu em Santos, mas sentiu necessidade de fazer a graduação em outro local, pois a Universidade Santa Cecília (UniSanta) estava encerrando o curso de licenciatura em Artes Visuais. Foi admitida na Santa Marcelina: “Eu entrei querendo pintar, mas acabei gostando mais das matérias de escultura, pela experimentação de materiais. Gostei demais de trabalhar com argila, de fundir uma peça, e um dos primeiros materiais que usei nas aulas de escultura foi o gesso, que é muito barato, é fácil de manipular, é só misturar com água e os resultados são muito incríveis”, conta.

Ao se formar, voltou para a Baixada Santista, para morar novamente com os pais, que tinham construído casa em Bertioga – o pai é engenheiro e a mãe, arquiteta. Expôs em diversas coletivas e, entre 2013 e 2015, participou de duas residências artísticas internacionais: na Hungria e na Islândia. “Ambas foram por uma seletiva, eu encaminhei um projeto para ser desenvolvido e uma comissão avaliou a proposta. Sendo aceita, recebi acesso a um ateliê e moradia. O objetivo era participar da programação do local, promovendo atividade para a comunidade e uma exposição ao final”, lembra.

Durante o mestrado, Lidia foi um dos 37 nomes selecionados entre 617 inscritos para a 2ª Mostra Bienal Caixa Novos Artistas, e sua peça, uma instalação intitulada “As três montanhas”, foi exposta em oito capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre. A mesma obra fez parte de uma grande coletiva organizada pelo Sesc Santos sobre artistas do Litoral Paulista, na exposição “Portos – Processos Orientados via Território e Ocupações Santistas”.

O estudo acadêmico, para a artista, alimenta seus questionamentos sobre o branco: “A minha questão com o branco, no mestrado, teve início com a paisagem. Eu pensava, se eu tirar toda a cor, o que me resta, eu ainda vou conseguir ficar com a paisagem? Qual a questão cultural da paisagem? Fiz toda uma pesquisa, sempre tentando abstrair a cor”.

Lidia aponta para uma série de telas numa das paredes do quarto-ateliê, da série “Persistência da Paisagem”, que ela realizou durante o mestrado. São trabalhos em serigrafia sobre gesso, uma técnica criada por ela. O efeito de textura é uma reação da serigrafia no gesso enquanto está curando, e o resultado lembra paisagens vistas sob forte neblina.
Para o doutoramento, Lídia fotografou pichações por várias cidades e foi subtraindo a forma, num processo de apagamento. “As imagens mais abstratas são fragmentos de pichações, numa apropriação de coisas que foram deixadas. Esses desenhos se convertem em coletâneas em relevo da cidade, guardadas todas branquinhas e higienizadas pela cor branca”, explica.

 

Texto de Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz