Cena

Obra de George Simenon ganha nova coleção pela editora Unesp

21/07/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Há um acontecimento editorial no Brasil que ultrapassa o mero entusiasmo do mercado de livros para se tornar um verdadeiro ato de justiça literária: o relançamento da colossal obra de Georges Simenon.

A promessa de trazer de volta ao leitor brasileiro, um a um, os mais de 200 romances do autor belga não é apenas uma maratona de publicação; é um convite para redescobrir o escritor que transformou o romance policial em literatura de altíssima voltagem existencial.

Enquanto a cultura pop consagrou os enigmas mecânicos de Agatha Christie, as deduções quase sobre-humanas de Arthur Conan Doyle ou o cinismo amoral de Patricia Highsmith, Simenon construiu um universo infinitamente mais denso, doloroso e verdadeiro.

Ler Simenon não é tentar adivinhar quem é o assassino na última página, mas encarar as frestas mais sombrias da alma humana.

Superioridade
Para entender a grandeza de Simenon, é preciso primeiro compreender o limite de seus concorrentes mais famosos. Agatha Christie era uma genial arquiteta de quebra-cabeças. Seus livros — ambientados em mansões aristocráticas, trens de luxo ou vilarejos pitorescos — funcionam como tabuleiros de xadrez impecáveis.

Os personagens de Christie são peças funcionais: a viúva gananciosa, o sobrinho falido, o médico suspeito. Quando Hercule Poirot reúne todos no salão para revelar o culpado, o enigma se resolve, a ordem social é restaurada e a morte se revela pouco mais que um pretexto matemático. Em Christie, a tragédia não deixa cicatrizes.

Arthur Conan Doyle, por sua vez, ergueu com Sherlock Holmes o templo do cientificismo vitoriano. Holmes é a razão pura, um super-homem intelectual que lê o mundo através de cinzas de charuto e pegadas na lama. Há um charme irresistível nisso, mas Holmes raramente se conecta com a dor dos envolvidos. O crime para ele é um problema lógico a ser resolvido; a mente humana, um mecanismo a ser decifrado.

Já Patricia Highsmith deu um passo adiante ao focar na psicologia do criminoso. Com seu cinismo cortante e personagens perversos como Tom Ripley, Highsmith criou retratos fascinantes da psicopatia. No entanto, sua literatura muitas vezes se fecha em uma frieza estilizada, em que a perversão é um espetáculo estético e a moralidade, uma piada vaga.

Simenon supera os três porque recusou a conveniência do quebra-cabeça, a arrogância da razão pura e o nihilismo gelado. Para ele, o crime nunca é um jogo de salão nem uma mera charada. É o ponto de ruptura de uma vida comum que não suportou o peso da existência.

Nos romances de Simenon — tanto nos livros de Maigret quanto nos seus romans durs —, o assassino não é um monstro, mas um homem desesperado, um indivíduo acuado pela solidão, pela humilhação ou pelo medo.

Compaixão
A grande criação de Simenon, o Comissário Jules Maigret, reflete perfeitamente essa visão de mundo. Maigret é a antítese radical de Poirot e Holmes. Ele não usa lupas, não ostenta erudição e abomina as teorias mirabolantes da perícia técnica.

A dinâmica de uma investigação de Maigret é atmosférica e sensorial. O comissário chega à cena do crime, acende seu cachimbo, pede um calvados ou uma cerveja no bistrô da esquina e começa a caminhar.

Ele quer sentir a mesma chuva que a vítima sentiu, ouvir o ruído dos passos no assoalho de madeira, cheirar o guisado que fervia no fogão da casa da suspeita. Maigret não caça impressões digitais; ele absorve o meio ambiente até compreender o ritmo biológico e emocional daquelas pessoas.

Seu método investigativo se resume a um preceito que se tornou a assinatura do próprio Simenon: compreender e não julgar. Maigret não busca a glória de prender o culpado nem se sente superior aos criminosos que persegue. Ao contrário, ele frequentemente sente uma profunda e incômoda compaixão por eles.

A Editora Unesp inicia um projeto de dez anos que publicará a obra integral do escritor belga, contemplando tanto os romances policiais do comissário Maigret quanto os chamados “romances duros”, marcados pelo mergulho na complexidade humana. Para ver quais livros já foram lançados e como adquirir as obras basta acessar a editora Unesp, em www.editoraunesp.com.br.