Cena

O Oscar, o balé, a ópera e a opinião pífia de Thimothée Chalamet

12/03/2026 Gustavo Klein
Divulgação

A declaração recente de Timothée Chalamet sobre balé e ópera provocou indignação em diversos setores da cultura. Ao afirmar que essas áreas seriam vistas como algo que “precisa ser salvo”, mas que “ninguém mais liga”, o ator acabou demonstrando uma visão superficial sobre duas das tradições artísticas mais importantes da história ocidental.

Balé e ópera estão longe de ser relíquias esquecidas. São linguagens que continuam vivas, em transformação e presentes em temporadas de teatros, festivais e companhias espalhadas pelo mundo (inclusive na Baixada Santista, que tem um cenário muito forte e muitas ótimas companhias de dança, incluindo aí a da coreógrafa Renata Pacheco, um grande orgulho para os santistas.

Como resultado, orquestras, companhias de dança e casas de ópera mantêm calendários ativos, produzem novas obras e formam artistas em diferentes gerações. Reduzir esse universo a algo irrelevante revela desconhecimento do alcance dessas expressões.

A fala do ator foi recebida como um gesto de desdém por artistas que dedicam décadas de estudo a essas formas de arte. O balé exige disciplina física e rigor técnico comparáveis aos de atletas de alto rendimento. A ópera reúne música, teatro e literatura em produções complexas que mobilizam cantores, maestros, músicos e técnicos. Tratar esse esforço coletivo como algo pelo qual “ninguém mais se importa” soa como desprezo por um trabalho artístico vasto e profundamente respeitado.

A reação não demorou. Companhias de dança, orquestras e cantoras líricas passaram a se manifestar publicamente nas redes sociais e em apresentações ao redor do mundo. Em vez de desânimo, surgiu um movimento de orgulho profissional. Artistas lembraram que essas áreas seguem formando público, revelando talentos e ocupando teatros históricos e contemporâneos.

O episódio também teve impacto na imagem pública do ator (que vem ignorando sistematicamente a polêmica em suas redes sociais). Em um momento em que seu nome circulava entre possíveis favoritos a prêmios importantes da temporada, a repercussão negativa enfraqueceu essa percepção. Em Hollywood, declarações que demonstram desprezo por tradições culturais costumam gerar reações rápidas e duradouras.

A ironia é que o comentário acabou produzindo o efeito oposto ao que parecia sugerir. Em vez de confirmar uma suposta indiferença do público, reacendeu o debate sobre a relevância dessas artes e ampliou sua visibilidade. Vídeos de apresentações, depoimentos de artistas e registros de bastidores passaram a circular com força, reafirmando a vitalidade de companhias e teatros.

Balé e ópera atravessaram séculos de transformações culturais e continuam encontrando novos públicos. Sobrevivem não porque alguém decide “salvá-los”, mas porque seguem emocionando plateias e inspirando artistas. Declarações apressadas podem gerar polêmica momentânea, mas dificilmente apagam tradições que se renovam continuamente.

Eu encerro este texto com uma outra reflexão, sobre como as redes sociais dão voz e visibilidade a opiniões e a pessoas que, em outros tempos, seriam vistas, apenas, como grandes idiotas. Ao mesmo tempo, quando casos como este aparecem, o cancelamento da figura é inevitável e merecido. Não dá para separar a pessoa de sua obra.