Cena

O jazz das palavras, ‘sujo’ e cheio de fissuras, de Cortázar

26/08/2025 Gustavo Klein
Divulgação

Julio Cortázar escrevia como quem solta um improviso no saxofone. Períodos extensos, cheios de desvios, que de repente se quebravam em pausas curtas. O compasso vinha do jazz, sua paixão contínua.

E também de sua vida errante: nasceu em 1914, na Bélgica ocupada pela Primeira Guerra, mas sempre se assumiu argentino. O desencontro estava dado desde o princípio. Viver entre margens seria seu destino e sua matéria-prima literária.

Nos anos 50, já radicado em Paris, começou a lançar contos que rompiam as normas. Em Bestiario e Las Armas Secretas, o fantástico não surgia como espetáculo, mas como infiltração. Uma porta fechada soava estranha, um sonho invadia a vigília, um homem virava axolote. Não eram narrativas de susto evidente, mas pequenas rachaduras no real.

Dizia que escrevia para “empurrar o leitor até a beira do abismo e deixá-lo decidir se encara ou não o fundo”. A glória veio com Rayuela, em 1963. O romance podia ser lido em ordem linear ou saltando capítulos conforme orientação do autor.

Não havia só uma narrativa, mas várias trilhas possíveis. A obra virou símbolo de uma geração latino-americana que queria romper fronteiras literárias. Em Paris, Oliveira e a Maga discutiam filosofia, perdiam-se nas ruas, reinventavam o viver como quem toca um solo interminável.

O romance era, sobretudo, um convite à provocação do leitor. Cortázar detestava a ideia de uma literatura domesticada. Para ele, o conto era combate de boxe: ou derrubava no fim, ou não servia, definição lembrada pelo jornalista, pesquisador e tradutor Alessandro Atanes, colunista do Jornal da Orla. “Sabe aquele meme da garota sorridente diante de uma casa em chamas? São os textos do Cortázar fitando o leitor, um desafio e uma convocação à aventura. Mas o que considero mais marcante na obra do Cortázar para o presente, tempo de facilidade militante, é sua confiança na inteligência de quem lê”.

CONTOS

Nos maiores — Casa Tomada, La Noche Boca Arriba, La Autopista del Sur —, a precisão é cirúrgica. O leitor é enredado sem perceber, até que a realidade se dissolve e não resta saída. O método parece simples, mas guarda armadilhas.

Ele não descrevia monstros: abria fissuras. A política atravessou seu caminho com força crescente. Exilado em Paris, rompeu com a distância elegante que mantinha dos regimes da região. A ditadura argentina e as vizinhas o levaram à militância. Aproximou-se de Cuba, apoiou os sandinistas, escreveu Libro de Manuel, tentativa de romance engajado que mesclava ficção e recortes de jornal.

Muitos leitores torceram o nariz. Ele não se importou. Queria que a literatura se contaminasse, que falasse com a urgência do presente.
Entre o militante e o criador de labirintos, havia o humorista oculto. Em Histrias de Cronopios y de Famas, de 1962, inventou criaturas desajeitadas, sentimentais, que viraram mascotes de leitores jovens.

O livro parecia leve, quase infantil, mas continha uma filosofia: a vida é caos, e aceitar esse caos é a única forma de enfrentá-lo. Cortázar gostava de rir de si próprio, de desmontar solenidades, de brincar com as palavras como quem troca acordes.

Ser argentino em Paris lhe deu uma condição única. Não integrava organicamente o “boom” latino-americano, mas também não estava fora dele.

Conversava de igual com García Márquez, Vargas Llosa e Fuentes, embora tivesse menos apetite por épicos. Preferia o jogo curto, a experiência íntima, o instante que se abre em abismo. O fato de ter nascido na Bélgica, crescido em Buenos Aires e vivido na França o transformou em escritor sem fronteiras.

Cosmopolita por condição, nunca deixou de escrever sobre a América Latina. Nos últimos anos, sua obra seguiu inventiva. Em Un tal Lucas e Queremos tanto a Glenda, misturava ensaio, crônica, conto, piada. Redigia cartas imensas, cheias de reflexões sobre política, amor e literatura. Com Carol Dunlop, sua última companheira, fez uma viagem de Paris a Marselha parando em todas as áreas de descanso da estrada.

O diário dessa jornada virou Los Autonautas de la Cosmopista. Uma espécie de anti-road movie, em que o caminho importa mais que o destino.

Cortázar morreu em 1984, em Paris, vítima de leucemia. Tinha 69 anos. Foi sepultado em Montparnasse, entre artistas e escritores que também fizeram da cidade sua pátria adotiva.

A morte não reduziu seu prestígio. Ao contrário: o elevou a mito pop. Seus livros seguem circulando em edições de bolso, traduzidos em várias línguas, lidos por leitores que se reconhecem nos cronopios, nos labirintos de Rayuela, nas revelações súbitas de seus contos.

Seu legado não é apenas literário. É um chamado à inquietação. Cortázar não queria leitores passivos, mas cúmplices. O fantástico, para ele, era só um modo de lembrar que a realidade não é estável, que tudo pode mudar de repente. Ler Cortázar é experimentar essa vertigem.