Cena

O apanhador no campo de centeio

07/06/2025 Rafael Medeiros
O apanhador no campo de centeio | Jornal da Orla

A cultura teen é um movimento com fortes e bem demarcados contornos, congregando diversos fatores que permeiam essa fase da vida: música, moda, tecnologia, interação social, vivência escolar, ideologia etc. Toda essa epistemologia juvenil promoveu um aprofundamento identitário da figura do adolescente. Se este, antes, era relegado a uma espécie de “quase-criança”, hoje se reconhece a complexidade dessa etapa na construção da personalidade.

A contribuição literária para a temática é enorme. Há sólidos segmentos direcionados especificamente para a adolescência. Além disso, romances maduros também passaram a tratar jovens personagens com a merecida densidade. E se é verdade que tudo tem um início, o clássico O apanhador no campo de centeio é possivelmente o primeiro relato literário de projeção/formação da puberdade.

O livro, lançado em 1951 pelo enorme J.D. Salinger, é narrado por Holden, um jovem de 16 anos que, expulso da escola, vagueia por Nova York para não ter que voltar para casa e lá encarar os pais. O mundo, para o rapaz, é todo fajuto, deprimente e cafona. Ele não gosta de nada nem de ninguém, com exceção de um falecido irmão e da pequena irmã Phoebe. Uma sensação de profundo desencaixe e alienação da sociedade o acompanha todo o tempo.

Salinger, com este livro, inventou o adolescente como personagem com o qual a literatura – e, no fim, todos nós – deve se preocupar.

Motivos para ler:

1- Foi com O apanhador no campo de centeio que o escritor estadunidense J.D. Salinger (1919-2010) inscreveu instantaneamente seu nome no alto cânone literário. Seguindo os passos de outros grandes nomes da literatura, o autor optou por uma vida bastante reclusa depois da fama. Publicou outros livros de sucesso e, em razão do seu austero isolamento, suspeita-se que há outras obras prontas e nunca reveladas ao público;

2- As diversas aberturas do romance permitem infindáveis digressões. Este talvez seja o motivo pelo qual o livro se mantém na vanguarda por anos a fio. E, de fato, de uma forma ou de outra, a história gera identificação com quem a lê em alguma medida;

3– O apanhador no campo de centeio ganhou renovado destaque na década de 1980 por motivos macabros. O assassino de John Lennon (em prisão perpétua até hoje) confessou que se identificava com o personagem Holden e, enquanto aguardava a polícia após ser detido pelo delito, pôs-se a ler o livro. Em outro conhecido episódio, o homem que atirou no ex-presidente Ronald Reagan tinha um exemplar do romance no hotel no qual estava hospedado. Por fim, o assassino da atriz Rebecca Schaeffer – um caso marcante que inaugurou a política anti-stalking – carregava um exemplar na data do crime. Curiosidades que não significam nada, mas que conferiram ao livro uma mitologia sinistra.