
A cultura teen é um movimento com fortes e bem demarcados contornos, congregando diversos fatores que permeiam essa fase da vida: música, moda, tecnologia, interação social, vivência escolar, ideologia etc. Toda essa epistemologia juvenil promoveu um aprofundamento identitário da figura do adolescente. Se este, antes, era relegado a uma espécie de “quase-criança”, hoje se reconhece a complexidade dessa etapa na construção da personalidade.
A contribuição literária para a temática é enorme. Há sólidos segmentos direcionados especificamente para a adolescência. Além disso, romances maduros também passaram a tratar jovens personagens com a merecida densidade. E se é verdade que tudo tem um início, o clássico O apanhador no campo de centeio é possivelmente o primeiro relato literário de projeção/formação da puberdade.
O livro, lançado em 1951 pelo enorme J.D. Salinger, é narrado por Holden, um jovem de 16 anos que, expulso da escola, vagueia por Nova York para não ter que voltar para casa e lá encarar os pais. O mundo, para o rapaz, é todo fajuto, deprimente e cafona. Ele não gosta de nada nem de ninguém, com exceção de um falecido irmão e da pequena irmã Phoebe. Uma sensação de profundo desencaixe e alienação da sociedade o acompanha todo o tempo.
Salinger, com este livro, inventou o adolescente como personagem com o qual a literatura – e, no fim, todos nós – deve se preocupar.
Motivos para ler:
1- Foi com O apanhador no campo de centeio que o escritor estadunidense J.D. Salinger (1919-2010) inscreveu instantaneamente seu nome no alto cânone literário. Seguindo os passos de outros grandes nomes da literatura, o autor optou por uma vida bastante reclusa depois da fama. Publicou outros livros de sucesso e, em razão do seu austero isolamento, suspeita-se que há outras obras prontas e nunca reveladas ao público;
2- As diversas aberturas do romance permitem infindáveis digressões. Este talvez seja o motivo pelo qual o livro se mantém na vanguarda por anos a fio. E, de fato, de uma forma ou de outra, a história gera identificação com quem a lê em alguma medida;
3– O apanhador no campo de centeio ganhou renovado destaque na década de 1980 por motivos macabros. O assassino de John Lennon (em prisão perpétua até hoje) confessou que se identificava com o personagem Holden e, enquanto aguardava a polícia após ser detido pelo delito, pôs-se a ler o livro. Em outro conhecido episódio, o homem que atirou no ex-presidente Ronald Reagan tinha um exemplar do romance no hotel no qual estava hospedado. Por fim, o assassino da atriz Rebecca Schaeffer – um caso marcante que inaugurou a política anti-stalking – carregava um exemplar na data do crime. Curiosidades que não significam nada, mas que conferiram ao livro uma mitologia sinistra.



A noite é um risco para quem é pobre nada.
É um risco para todos que passeiam pela noite
Para alguma necessidade inadiável.
A violência é como um bicho ruim
Dentro da noite que exala violência
Através da passagem da noite,
Onde há luta,
Gente que se movimenta
Pelas madrugadas dentro da noite.
A noite misturada à violência
Deixa marcas pelo corpo, o chumbo
A morte.
A noite é uma possibilidade que alguns existem
Para deixar a violência,
Atos covardes sobre os pobres nada,
Mas esses são os que mais perdem com ela
E o país inteiro
Do rincão a outras partes.
A noite misturada à violência é como
Um animal selvagem
Ataca com objetivos,
Causar medo, pavor.
A noite é um risco para quem é pobre nada,
É um risco para todos que passeiam pela noite para Alguma necessidade.
A menina gentilmente abre o livro
Segura na palma da mão com cuidado
Para não destruir
Um produto frágil, leve, que transforma
Mas duro, firme, substancial, eterno, se consumido.
Substância para o prazer,
Não pode ficar quieto sobre o armário,
Esquecido em um canto.
A menina abre o livro,
Página por página faz a leitura
Do ser que tem aparência frágil,
Mas que muda outro ser por dentro,
Transforma, modifica, altera, muda as rotas.
Nesse momento sublime, de distanciamento,
A atenção da menina fica esquecida nas linhas,
Nas palavras do texto que a leva
Para lugares, paisagens que só ela imagina.
O ônibus balança sobre as peças, os metais, os eixos,
Sobre as partes onduladas do asfalto;
Balança sobre a avenida esburacada,
Sobre o amortecedor, as rodas, a engrenagem,
Enquanto a menina lê o livro.
Há restos de escombros, as valetas sujas,
Águas represadas das chuvas dos temporais,
Criadouros de mosquito,
A doença que não deixa o cérebro crescer.
Depois uma criança que não dura muito.
Enquanto a menina lê o livro para ver belezas,
O motorista leva o ônibus pela avenida,
Há lixo espalhado, pedras amontoadas,
O mato que cresce no pátio de um colégio público,
Há outros passageiros no ônibus
Que segue balançando pelo caminho.
Distraem o espírito, amortecem os olhos
Na tela do celular como se estivessem sonolentos;
Veem fotografias, imagens mortas que distraem.
Estão indisponíveis à realidade, às valetas sujas,
Ao mato que cresce no pátio do colégio.
A menina gentilmente abre o livro
Segura na palma da mão com cuidado
Para não destruir
Um produto frágil, leve, que transforma
Mas duro, firme, substancial, eterno, se consumido.
Substância para o prazer,
Não pode ficar quieto sobre o armário,
Esquecido em um canto.
A menina abre o livro,
Página por página faz a leitura
Do ser que tem aparência frágil,
Mas que muda outro ser por dentro,
Transforma, modifica, altera, muda as rotas.
Nesse momento sublime, de distanciamento,
A atenção da menina fica esquecida nas linhas,
Nas palavras do texto que a leva
Para lugares, paisagens que só ela imagina.
O ônibus balança sobre as peças, os metais, os eixos,
Sobre as partes onduladas do asfalto;
Balança sobre a avenida esburacada,
Sobre o amortecedor, as rodas, a engrenagem,
Enquanto a menina lê o livro.
Há restos de escombros, as valetas sujas,
Águas represadas das chuvas dos temporais,
Criadouros de mosquito,
A doença que não deixa o cérebro crescer.
Depois uma criança que não dura muito.
Enquanto a menina lê o livro para ver belezas,
O motorista leva o ônibus pela avenida,
Há lixo espalhado, pedras amontoadas,
O mato que cresce no pátio de um colégio público,
Há outros passageiros no ônibus
Que segue balançando pelo caminho.
Distraem o espírito, amortecem os olhos
Na tela do celular como se estivessem sonolentos;
Veem fotografias, imagens mortas que distraem.
Estão indisponíveis à realidade, às valetas sujas,
Ao mato que cresce no pátio do colégio.
O livro descreve um período conflituoso na vida de um adolescente, onde se questiona os valores da sociedade e as dificuldades nessa época da vida. Muito embora escrito nos anos 50, nos faz reflitir as ações, atitudes e pensamentos dos jovens nos dias de hoje.
Eu li esse livro quando adolescente e acho que em algum grau me identificava com o niilismo do Holden, o tédio que nunca cessa. Agora na casa dos 30, estou pensando em revisitar essa obra que fez parte da minha adolescência. Mas realmente, é um clássico. Excelente análise!
Gosto muito das suas resenhas meu nobre amigo… parabéns mais uma vez
Não sabia sobre esse mito macabro
Clássico pesado
Maravilha…. ótimo texto
A adolescência sempre é conturbada, até hoje não me recuperei e não gosto de nada nem de ninguém.
Vou ler e ver se melhoro.
Grato pela resenha.
Parabéns pelo texto.
Leituras necessárias estimuladas por resenhas precisas.
Parabéns pelo texto.
Leituras necessárias estimuladas por resenhas precisas.
Parabéns pelo texto.
Leituras necessárias estimuladas por resenhas precisas.👍
Parabéns pelo texto.
Leituras necessárias estimuladas por resenhas precisas.👍
Vou ler o libro? Não sei, mas gostei da reflexão; a adolescēncia nos mantem vivos…ou não…
Parabéns pelo texto!
Se a vida em si é um grande mistério. Querer saber porque estamos aqui, qual o sentido de nossa existência é um anseio de todos nós. É na adolescência, quando começamos a adquirir nossa identidade, que se torna necessário ter alguém em que nos inspirar, em quem possamos confiar, em que nos apoiar. Quando isso falta, para muitos, o mundo se torna hostil e artificial, levando a uma interpretação da existência como sem sentido e a alienação do individuo.
São esses temas universais abordados no livro que continuam relevantes hoje, como o foram antes e continuarão no futuro que tornam o livro uma obra atemporal. Afinal adolescência sempre existirá enquanto humanos formos….
Parabéns. Mais um tema atual a nos brindar nesta coluna.