
Uma metrópole de oportunidades vazias, guiando seus habitantes em um caminho sem rumo. Completando 60 anos do seu lançamento, em 1965, São Paulo S.A., segundo longa-metragem do diretor paulistano Luiz Sérgio Person (1936-1976), é a síntese dramática de um sentimento bastante comum do convívio em grandes centros econômicos do mundo.
O filme se passa entre os anos de 1957 e 1961, período representativo de um grande avanço na industrialização do país, e conta a história de Carlos (Walmor Chagas), um inspetor de qualidade de uma montadora de veículos da capital paulista que cresce profissionalmente, chegando ao cargo de sócio de uma fábrica de autopeças, ainda jovem. Mesmo com o sucesso na carreira e uma vida afetiva, o personagem vive insatisfeito, sem perspectivas ou projetos para o futuro. Um descontentamento catalisador para que o protagonista fuja dessa realidade.
A história já começa a ser contada no clímax derradeiro da vida do protagonista, com ele deixando a casa que mora com Luciana (Eva Wilma), a mãe de seus filhos. Tudo é banhado por um domínio poético da forma cinematográfica, com o espelho que reflete a cidade corrosiva para a relação de Carlos com a mulher, ao mesmo tempo em que as vozes dos personagens são abafadas nesse meio. Um ambiente que sufoca a expressividade humana e não possibilita a criação de vínculos autênticos.
Mesmo com esse uso formal dos enquadramentos, a influência do cinema neorrealista italiano, de diretores como Roberto Rossellini e Vittorio De Sica, é notada na forma como a cidade e seus moradores protagonizam grande parte do filme. A obra tem uma característica naturalista na narrativa e na maneira que utiliza os espaços em cena, o que é fundamental para posicionar e entender São Paulo como um Leviatã nesse contexto.
As mudanças do tempo na história traduzem uma confusão metropolitana, que acaba se estendendo para momentos em que reencontramos personagens. Dificulta a localização de quem são essas pessoas nesses reencontros, o que denota uma dúvida filosófica e bastante pessoal de cada um deles. “Intransferível”, como diz a personagem Hilda (Ana Esmeralda). A união entre pessoa-cidade é alternada a partir de enquadramentos mais fechados, dando uma intimidade e destacando essas dores, até mesmo com alguns voice overs mais expositivos e diretos.
Esses elementos constroem o retrato de uma cidade com uma pujança sem propósito, mascarada pelo trabalho, retratando o conservadorismo brasileiro que também gosta de se esconder nele mesmo. Um retrato que continua atual pelas transformações causadas por novas revoluções industriais, com um mesmo caráter alienador.
60 anos
Para celebrar a data histórica, São Paulo S.A. ganhou uma versão restaurada em 4K, fruto de uma parceria entre a Cinemateca Brasileira, a Cineteca di Bologna e a Lauper Films, empresa fundada em 1966 pelo diretor Luiz Sérgio Person e Glauco Mirko Laurelli. A reestreia internacional aconteceu em junho, no Festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, na Itália. Nesta sexta-feira (22), a nova versão será exibida na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. O filme está disponível na Netflix e no Globoplay.



Deixe um comentário