Saúde

Nipah acende alerta; especialistas descartam risco de pandemia

31/01/2026 Da Redação
Reprodução/Pexels

A confirmação de dois casos do vírus Nipah (NiV) na Índia, em 2026, reacendeu o alerta das autoridades sanitárias e ampliou a repercussão internacional sobre a doença. Para esclarecer o cenário e conter especulações sobre uma possível nova pandemia, o Jornal da Orla conversou com o epidemiologista Fábio Mesquita e o infectologista Marcelo Neubauer.

Apesar do monitoramento, Mesquita reforça que o momento é de vigilância, não de alarme. “O Nipah é uma zoonose, ou seja, um vírus que circulava entre animais e passou a infectar humanos”, explica. O reservatório natural são morcegos que se alimentam de frutas e que, em surtos iniciais, transmitiram o vírus a porcos — responsáveis pelos primeiros casos humanos.

A comparação com a Covid-19 surge de forma quase automática, mas o epidemiologista pondera. “O último grande vírus emergente associado a morcegos foi o da Covid-19, o que naturalmente acende um alerta”.

Um dos pontos que mais preocupam é a alta letalidade do Nipah, que varia entre 40% e 75%, dependendo do surto. Ainda assim, Mesquita contextualiza que o vírus não é novo. “O primeiro surto ocorreu em 1998 e, desde então, houve registros esporádicos em países do Sudeste Asiático, como Malásia, Bangladesh e Singapura. O maior surto já registrado teve cerca de 265 casos e 100 mortes”.

Protocolo de saúde
Para o infectologista Marcelo Neubauer, o cenário atual exige atenção técnica, mas não justifica pânico. Ao analisar o risco de disseminação para o Brasil, ele destaca que a dinâmica do transporte é determinante. Em cidades portuárias como Santos, que abriga o maior complexo portuário da América Latina, o tempo de viagem funciona como uma barreira natural. “Se um navio vindo da Ásia leva mais de uma semana para chegar, o risco de entrada silenciosa do vírus diminui, porque os sintomas tendem a surgir antes do desembarque”, explica.

Em situações suspeitas, o protocolo prevê a manutenção da embarcação em quarentena na zona de fundeio por sete a dez dias. “Se não houver manifestação de sintomas nesse período, a liberação ocorre com segurança”, afirma.

Até o momento, em 2026, os dois casos confirmados permanecem restritos a uma região específica da Índia. Países vizinhos adotaram medidas preventivas, como controle em aeroportos, rastreamento de passageiros e monitoramento posterior. “Esse é um procedimento padrão em saúde pública. Diante de uma doença com potencial de disseminação, o acompanhamento é essencial”, explica Mesquita.

Com 12 anos de atuação na Organização Mundial da Saúde (OMS), o epidemiologista lembra que o Nipah integra a lista de patógenos prioritários. “A maior preocupação não é o Nipah hoje, mas a possibilidade de uma mutação que facilite a transmissão entre humanos”.
Segundo ele, após a pandemia de Covid-19, a OMS reforçou estruturas permanentes de preparação para emergências. “O próprio diretor-geral costuma dizer que a questão não é se haverá uma nova pandemia, mas quando isso acontecerá”.

Mesquita também associa o aumento das zoonoses à degradação ambiental. “Esses vírus sempre existiram nos animais. Quando o ser humano avança sobre a natureza, eles se adaptam”. A globalização, segundo ele, agrava o cenário. “A circulação intensa de pessoas altera completamente a dinâmica das doenças”.

Os sintomas iniciais incluem febre, náusea e tontura, mas a evolução pode ser rápida e grave. “O vírus provoca encefalite, uma inflamação no cérebro, o que explica a alta letalidade”, explica Neubauer.

Uma das principais recomendações em áreas afetadas: lavar cuidadosamente frutas antes do consumo e – recomendação que vale para todos a todo momento, independentemente de epidemias – usar álcool gel e lavar as mãos com frequência.

Atualmente, não há tratamento específico nem vacina, em razão do número limitado de casos ao longo da história.

Aeroportos
Embora os portos demandem atenção, Neubauer ressalta que os aeroportos representam hoje o maior desafio da biossegurança global. A rapidez do transporte aéreo permite deslocamentos intercontinentais em menos de 24 horas, muitas vezes antes do início dos sintomas. “Em casos de encefalite, a orientação é de tolerância zero: qualquer paciente com esse quadro e histórico de viagem deve ser isolado imediatamente”, alerta.

Risco no Brasil
Sobre o risco para o Brasil, Mesquita avalia que ele é baixo neste momento. “Não há voos diretos de Bengala Ocidental. Esse nível de alerta ainda não se aplica ao país”. Em relação aos portos, ele pondera. “Eles ganham mais relevância em cenários de pandemia. Em surtos localizados, o foco principal são os voos”.

Neubauer também menciona riscos ambientais de longo prazo, como o degelo das calotas polares e a eventual liberação de vírus antigos. Apesar de existirem estudos sobre o tema, essa ainda é uma ameaça teórica. Na prática, o foco das autoridades permanece na contenção de surtos ativos e na vigilância coordenada pela OMS, que emite informes diários. O surto atual é considerado controlado, sem registros fora do núcleo isolado na Índia.

Por fim, o infectologista reforça que a proteção contra ameaças emergentes ou comuns, como o vírus da gripe, passa por hábitos simples. “Higienizar as mãos e usar álcool em gel continuam sendo medidas fundamentais”. Segundo ele, os sistemas de vigilância estão operando plenamente, e a colaboração da população é decisiva.

A orientação final, segundo Mesquita, é direta. “Não há motivo para pânico. É um surto localizado, com poucos casos, mas que exige atenção”. Ele destaca ainda a principal fonte de informação confiável. “O site da OMS acompanha a situação em tempo real, com rigor técnico e científico”.

 

Texto de Gustavo Klein e Isabela Marangoni