Regional

Neta de pajé estuda medicina para trabalhar com povos indígenas

09/12/2021
Neta de pajé estuda medicina para trabalhar com povos indígenas | Jornal da Orla

Ela saiu de sua tribo Tupi em Peruíbe para cursar Medicina e, quando formada, pretende retornar à sua aldeia, para atender a comunidade. Nauany Pótu-Coereguá Gomes mora na Aldeia Bananal, na zona rural de Peruíbe, fez o Nauany fez o Ensino Técnico de Administração Integrado ao Médio (Etim), na Escola Técnica Estadual (Etec) de Peruíbe, se formou em dezembro de 2020 e, neste ano, foi aprovada para o curso de Medicina.

Nauany mudou-se para a cidade gaúcha de Rio Grande, em meados de novembro, para estudar na Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Será a primeira vez que ela vai morar longe da família, mas não faltam coragem e entusiasmo na bagagem. E a motivação não poderia ser mais nobre: realizar um sonho que acalenta desde criança. Essa vocação para a área da saúde, ela acredita, tem muita influência do avô, que é o cacique e pagé da Aldeia Bananal.  Aliás, ela é de uma família que tem quatro pedagogos e seu avô é cacique e pagé da Aldeia Bananal — daí sua escolha pela Medicina.

 

Futura médica é neta de pajé

Nauany acompanhava seu avô de perto no tratamento de enfermidades do povo da aldeia e se inspirou nesse exemplo e nas práticas ancestrais para fazer sua escolha profissional. Aos novos aprendizados, ela pretende agregar a sua experiência com as terapias naturais que vivenciou na aldeia. “Eu pretendo integrar a medicina tradicional e a natural porque acredito que sejam complementares.”

O curso teve início no formato remoto em agosto e era oferecido de forma síncrona ou gravada, no período das 7 às 19 horas. Em novembro, o curso foi retomado presencialmente na universidade. “Ainda estou na fase de adaptação, mas muito motivada para as aulas que permitirão participar das atividades práticas”, explica.

 

Valorização das tradições indígenas

Nauany ressalta que a sua passagem pela Etec a ajudou a enfrentar os desafios de estudar fora da sua comunidade. “Antes da Etec eu tinha vergonha de expressar a minha cultura e tradições”, afirma. Para ela, o ambiente de acolhimento da escola foi fundamental para resgatar sua identidade, autoestima e a resiliência necessária para os estudos. Além do suporte emocional, os professores também tiveram um papel importante na sua aprovação no vestibular. “Enfrentei dificuldades de acesso à internet, mas sempre contei com os professores para tirar dúvidas e me aconselhar”.

A transferência para uma cidade localizada a 1.270 quilômetros de distância de Peruíbe também é uma conquista a ser comemorada. Para se manter fora de casa, Nauany fez uma vaquinha virtual e levantou recursos para essa empreitada. A iniciativa de arrecadação tem o apoio do programa Crescer com Proteção, promovido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que incentiva a educação como forma de proteger crianças e adolescentes da violência.