Cena

Um mural que celebra imigração italiana e aproxima Santos de Gênova

16/08/2025 Isabela Marangoni
Riccardo Rossi

O coração do Centro Histórico de Santos ganhou, em 2024, um marco visual que combina memória e afeto: o mural ‘Um Mar de Esperança’. A obra celebra os mais de 150 anos da imigração italiana no Brasil e reforça o vínculo entre Santos e Gênova. Instalado a poucos metros do Museu do Café, o trabalho é assinado pelos artistas brasileiros Apolo Torres, de São Paulo, e Julliana Rosa, de Santos, sob a curadoria da italiana Giulia Lavinia Lupo.

O mural retrata a travessia e a esperança que moveram milhares de imigrantes. No centro da composição, uma mulher encara o navio que a levará a uma nova vida. Ao longo da obra, malas, baús, pássaros, o Forte de Santos e a cafeteira napolitana constroem uma narrativa que culmina no olhar firme da protagonista, voltado para o futuro. “Quis que houvesse um artista local e outro de fora, para equilibrar olhares. O Apolo trabalha com realismo quase fotográfico; a Juliana explora simbolismo e texturas. Juntos, construíram um diálogo entre memórias e sonhos”, explica Giulia.

Da Toscana ao Brasil

Natural de Empoli, na Toscana, Giulia construiu sua carreira entre Milão, Paris, China e Índia, atuando em arte, cinema e moda. Participou de adaptações de musicais internacionais para o público italiano, como A Bela e a Fera e Mamma Mia, além de festivais de cinema, antes de se aproximar da arte urbana.

Em 2017, decidiu mudar de rumo. “Não era mais feliz. Pedi demissão, peguei uma mochila e comprei uma passagem para São Paulo. Planejava seguir para Argentina e Chile, mas acabei ficando no Brasil. Amei a cultura e o povo, e logo quis morar aqui”, lembra.

O contato com a cena de arte urbana paulista deu origem à She Wolf by Giulia, empresa dedicada à curadoria e produção artística, focada em projetos que conectam artistas brasileiros e italianos em contextos urbanos e institucionais.

Embora sua relação com Santos tenha sido breve, ela teve grande importância. “Descobri a cidade graças a um amigo italiano que sempre falava sobre a região. Meu marido é de Guarujá, então já conhecia a cidade. Antes de mudarmos para nossa atual casa, em São Paulo, ficamos em um airbnb na cidade e achei maravilhoso. A partir dali, sempre voltamos”, conta.

Entre os aspectos que mais aprecia, se destacam as caminhadas pela orla. “Os sete quilômetros da praia são incríveis, seja pela calçada, pelo jardim ou em frente ao mar. Você sente a energia, o cheiro, é maravilhoso”. Ela também valoriza o comprometimento da prefeitura e da comunidade em realizar projetos concretos. “Vi pessoas jovens querendo fazer coisas de verdade, testando iniciativas que podem dar certo ou não, mas vivendo a cidade de forma intensa”.

Irmandade e memória

Em 2022, Giulia conheceu o italiano Fabio Niosi, integrante da Società Italiana de Santos, que sonhava em criar uma obra capaz de aproximar Santos e Gênova. Já tendo colaborado com a prefeitura de Gênova em um festival de arte urbana, ela viu ali a oportunidade perfeita.

O projeto ganhou impulso com o apoio do senador italiano Fábio Porta e culminou na assinatura do pacto de cidades-irmãs entre Santos e Gênova — primeiro virtualmente, em 2023, e depois presencialmente, na Itália, em outubro. Em março de 2024, a inauguração do mural selou a parceria.

Para Giulia, a obra vai além da imigração italiana. “Quis que fosse um ponto de memória para todos que têm na família alguém que chegou de navio. Santos foi um porto fundamental não só para italianos, mas também para japoneses e outras nacionalidades. É sobre lembrar e agradecer.”

A experiência também ressignificou sua relação com a Itália. “Quando cheguei ao Brasil, estava me afastando do meu país. Aqui, aprendi a amá-lo de novo, por meio do carinho que os brasileiros têm por ele.”

Arte como registro

Giulia defende a arte pública como ferramenta de preservação e estímulo cultural. “O mural nasceu cheio de expectativas e com um peso emocional enorme. Não queríamos clichês, mas algo profundo, que conversasse com a arquitetura histórica e a memória afetiva. A arte mural lembra, ensina e provoca emoções. É um presente para a cidade e precisa ter propósito”.

Na 2ª edição da Festa Italiana de Santos — que celebra a herança cultural dos imigrantes — o mural de Giulia, Apolo e Julliana se torna ponto de encontro e contemplação. Mais do que tinta sobre a parede, é uma janela para o passado e um convite a pensar o futuro, reforçando que a história que nos trouxe até aqui continua a ser escrita e pintada.