Cena

Médicos, sim! Mas eles também arrasam na música

10/04/2025 Isabela Marangoni
Arquivo pessoal/Fernando Yokota

O que a música e a medicina têm em comum? Para muitos, essa combinação pode soar improvável, mas para Carlo Alba e Claudio Roncatti, as duas coisas caminham lado a lado.

Na rotina exaustiva da medicina, onde o tempo é cronometrado, a dor do outro é constante e o emocional precisa caber dentro de um jaleco branco, Claudio e Carlo encontraram um antídoto bastante sonoro. Um canta em corais; o outro, extravasa sua alma em amplificadores. Um navega entre sopranos e contraltos; o outro, entre riffs e distorções. Ambos descobriram na música aquilo que nem a medicina, por mais nobre que seja, consegue oferecer sozinha: um espaço para a sensibilidade, a vulnerabilidade e a conexão profunda.

Claudio, cirurgião plástico com décadas de experiência, começou a cantar ainda menino, no coral infantil do Liceu Coração de Jesus, em São Paulo. Aquela primeira experiência não foi apenas uma fase — foi o início de uma paixão duradoura. Hoje, mora em Santos e continua afinando a voz em três grupos vocais, entre eles um coral feminio, onde é o único homem entre dezenas de vozes femininas.

A ligação com a música vem de berço. A mãe cantava e tocava piano, o tio foi cantor lírico e o avô também cantava em corais. “Eu herdei essa parte da sensibilidade musical da família da minha mãe”, diz Claudio. “A música foi me alimentando e eu fui seguindo. Cada vez que aparecia um coral, eu entrava”.

Para ele, cantar em grupo é mais do que técnica: é uma prática de escuta, entrega e harmonia coletiva. “É um trabalho de equipe. Cada um tem sua parte, mas é a soma que cria a beleza”, afirma. Cantar também funciona como uma forma de descompressão. “Você chega ao ensaio com a cabeça cheia, e em cinco minutos está em outro mundo”.

No Coral Univozes, do Colégio Universitas, divide o palco com cerca de trinta mulheres — sendo o único homem. Longe de se incomodar, encara isso como um privilégio e uma oportunidade constante de aprendizado. “É um coral muito expressivo, cheio de emoção. E com uma força feminina muito grande. Eu aprendo muito ali”, diz.

Já Carlo Alba, ortopedista especializado em cirurgia de joelho e com longa trajetória como médico do Santos Futebol Clube, encontrou no rock uma forma de expressão visceral. É vocalista da banda santista Garage Rock, formada por Thiago Fire (guitarra), Leopoldo Greco (baixo) e Estefan Ferreira (bateria), amigos que homenageiam o rock nacional dos anos 1980 e compõem canções autorais repletas de crítica social e existencial. Em meio a atendimentos e plantões, Carlo escreve letras sobre frustrações, angústias e o desencaixe do homem contemporâneo — como em ‘O Homem Morto’, música já disponível nas plataformas digitais, com videoclipe no YouTube.

A composição é uma parceria com o guitarrista Tiago Fire. Juntos, unem riffs melódicos com letras afiadas, que provocam, ironizam e capturam o espírito inquieto de uma geração. O tal “homem morto”, explica Carlo, é alegórico. “É o sujeito esgotado, anestesiado pelo noticiário, pela rotina, pela sensação de não-pertencimento”.

O som da banda é direto, com ecos de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho, mas carrega uma identidade própria. E é no palco que Carlo se reinventa — ou talvez se revele. “No palco eu sou outro. Ou talvez seja eu mesmo, por inteiro”.

A música, que poderia ser só um hobby, se transforma em ferramenta de sobrevivência emocional. “Essas músicas nascem de inquietações sem cura. Angústias, revoltas. Transformar isso em arte é uma forma de não se deixar endurecer”.

Apesar das diferenças — coral sacro e rock autoral —, os dois médicos compartilham algo em comum: a música como refúgio. “Quando começo a cantar, tudo muda. As preocupações somem. É como se algo se realinhasse por dentro”, diz Claudio. Para ele, o coral é uma experiência coletiva de afeto, uma forma de não perder a ternura em um mundo agressivo. “Exige entrega, foco e emoção. E nos ensina a ouvir o outro — algo fundamental tanto na música quanto na medicina”, completa.

Mesmo nos momentos mais difíceis, Claudio nunca deixou de cantar. “Já fui direto de plantão para o ensaio, com a cabeça a mil. Mas quando a gente começa a cantar, algo muda. O corpo relaxa. A mente se aquieta”.

Carlo parte da mesma lógica. “Se eu não tivesse a música como válvula de escape, acho que enlouqueceria. No consultório, a dor é física. No palco, a gente canta as que ninguém vê”, diz.

Ambos também refletem sobre o papel da sensibilidade masculina — e o quanto ela ainda é podada por tabus culturais. Claudio lamenta o afastamento de homens dos corais por medo de parecerem frágeis. “Tem homem que gosta de cantar, mas não entra num coral por puro preconceito. Como se fosse coisa ‘de mulher’. Sensibilidade não é fraqueza. Ao contrário — exige força emocional”.

Carlo traduz essa crítica em versos. “Muita gente acha que rock é só rebeldia, mas tem muita dor ali. E cantar essa dor é uma forma de resistir — não à sociedade, mas à indiferença”.

Se Claudio vê a música como alimento da alma, Carlo a trata como um grito de sobrevivência. Um organiza a harmonia entre vozes. O outro transforma o caos em melodia. Mas os dois sabem que, no fundo, cantar é uma maneira de continuar sentindo. “É quase terapêutico. Você esquece os boletos, as cirurgias, os plantões. Vira outra coisa. Vira só música”, resume Carlo.

E se o palco parece distante da sala de cirurgia, eles sabem que há uma ponte invisível entre os dois. “É o que me equilibra, o que me organiza por dentro. A música é alimento. Quando estou cantando, o mundo faz mais sentido”, conclui Claudio.