
O câncer de colo do útero segue como um importante problema de saúde pública no Brasil. A cada ano, mais de 17 mil mulheres são diagnosticadas com a doença, que é a terceira mais incidente entre o público feminino — desconsiderando os cânceres de pele não melanoma.
Nesse contexto, a campanha Março Lilás reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Segundo a oncologista Ticila Melo, da Imuno Santos, o tumor se desenvolve na parte inferior do útero e, na maioria dos casos, está associado ao HPV.
A principal estratégia de prevenção envolve a combinação entre vacinação, acompanhamento ginecológico e a realização periódica do exame Papanicolau. Simples e acessível, o exame permite identificar precocemente alterações causadas pelo vírus. “Se houver alguma anormalidade, é possível iniciar o tratamento rapidamente, o que aumenta muito as chances de cura. No início, essas lesões não apresentam sintomas”, ressalta a médica.
Um estudo da organização não governamental ImpulsoGov, com base em dados do Sistema de Informação em Saúde para Atenção Básica (Sisab), do Ministério da Saúde, aponta que mais de 36 milhões de mulheres entre 25 e 64 anos não realizaram ao menos um exame preventivo do colo do útero no intervalo de três anos.
A recomendação é que o exame seja feito por mulheres a partir dos 25 anos que já tiveram relação sexual — anualmente nos dois primeiros anos e, após dois resultados negativos, a cada três anos.
Entre os principais obstáculos estão a falta de informação, medo, vergonha e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Embora silencioso no início, o câncer pode apresentar sintomas em estágios mais avançados, como sangramento vaginal anormal, dor durante a relação sexual, dor pélvica, corrimentos e inchaço nas pernas.
Quando diagnosticado precocemente, o índice de cura pode chegar a 95%. O tratamento varia de acordo com o estágio da doença e pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia e imunoterapia.
Campanha
A vacinação contra o HPV é considerada uma das formas mais eficazes de evitar o desenvolvimento da doença. “A vacina estimula o organismo a produzir anticorpos que impedem a infecção pelo vírus, evitando lesões que podem evoluir para câncer”, explica Ticila. Disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a imunização é indicada para meninas e meninos a partir dos 9 anos.
O uso de preservativos e cuidados com a saúde sexual, não fumar e manter hábitos saudáveis também são formas de prevenção.
Vacinação contra o HPV é destaque na região
Em Santos, os indicadores apresentam queda significativa nas últimas décadas. Dados do DataSUS mostram que, entre 2005 e 2009, a incidência variava entre 10 e 18 casos a cada 100 mil mulheres. Hoje, houve redução de cerca de 66,6%.
O resultado está diretamente ligado às políticas públicas de prevenção e à alta cobertura vacinal contra o HPV no município.
Desde 2023, com a implementação regular do Programa de Vacinação nas Escolas, a cidade passou a registrar índices expressivos de cobertura. Em 2023, o percentual chegou a 98,31%, superando as médias do Estado de São Paulo e do Brasil. Em 2024, se manteve em 97% e, em 2025, mesmo com dados provisórios, segue elevado: 89,4% entre meninas e 82,7% entre meninos, permanecendo à frente dos índices estaduais e nacionais.
A estratégia inclui busca ativa nas escolas, análise de carteirinhas de vacinação, cruzamento de dados e ações educativas com alunos e responsáveis. A aplicação das doses ocorre mediante autorização dos pais, que também participam de encontros informativos promovidos pela Secretaria de Saúde.
Além das unidades de saúde, o município investe em postos itinerantes de multivacinação. Outro destaque é o programa Santos Jovem Doutor, desenvolvido desde 2014 em parceria com a Faculdade de Medicina da USP. A iniciativa forma estudantes da rede municipal como multiplicadores de informação em saúde e já impactou mais de 5 mil jovens.
Projeto HPV
Parte desse avanço também é resultado de iniciativas da sociedade civil. O Rotary Club de Santos Boqueirão desenvolve, desde 2007, o Projeto HPV, criado antes mesmo da vacina estar disponível no SUS.
A advogada Isabela Castro, presidente fundadora do clube, relembra que a iniciativa surgiu a partir do alerta da oncologista Marta Perdicaris sobre o crescimento dos casos. “A preocupação era levar informação. Na época, a vacina era cara e pouco acessível, e falar sobre HPV nas escolas ainda era um tabu”, afirma. O projeto passou a atuar diretamente nas escolas, com ações estruturadas que envolvem professores, pais e alunos, além de materiais educativos, vídeos e rodas de conversa. Concursos de redação também foram utilizados como estratégia de engajamento.
Com o tempo, a iniciativa se fortaleceu em parceria com o poder público, ampliando o alcance das ações e contribuindo para a conscientização da população.
Prevenção
Apesar dos avanços, ainda há desafios, especialmente na ampliação da cobertura vacinal e no acesso à informação de qualidade. “O preconceito nasce da desinformação. Quando as pessoas entendem a importância da vacina e da prevenção, esse cenário muda”, destaca Isabela.
Atualmente, a vacina oferecida pelo SUS protege contra quatro tipos do HPV, responsáveis por verrugas e cânceres. Já está em estudo a adoção da versão nonavalente, que amplia a proteção para nove cepas do vírus.
A mensagem do Março Lilás é direta: informação, vacinação e exames regulares são as principais ferramentas para reduzir a incidência da doença e salvar vidas.


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