
Prestes a completar 40 anos de atuação no design gráfico e com uma sólida trajetória como educadora e artista visual, a santista Márcia Okida retoma um antigo projeto que cruza suas paixões por cinema, imagem e linguagem simbólica: a análise de cartazes de filmes. A proposta, que começou ainda nos anos 2000, volta agora em formato digital e acessível, com publicações semanais no Instagram e no TikTok.
“Começou muito tempo atrás, acho que por volta de 2006. Publiquei minha primeira análise no projeto Desconstrução Gráfica”, lembra Márcia. “Na época, eu coordenava o Cine Surpresa, em que levava os alunos para ver filmes sem saber qual seria. Sempre gostei muito de cartazes, e dizia para eles que, se a gente analisasse com atenção, dava para descobrir quase toda a história do filme só pela imagem”.
O que nasceu como uma provocação em sala de aula ganhou fôlego: virou conteúdo em blogs, apareceu em sites especializados em design e agora renasce com nova roupagem, em vídeos curtos, análises simbólicas e leituras visuais. A dinâmica é simples: um reel de até dois minutos sobre a direção de arte do filme, seguido por um post com a paleta de cores e uma análise detalhada do cartaz. “Tento complementar as informações, sem repetir. O que falo no vídeo não está no texto e vice-versa”, explica.
Análises
Entre os filmes já abordados estão ‘Dogville (2003)’, ‘O Cão Andaluz (1929)’ e o recente ‘Straw – Até a Última Gota (2025)’, da Netflix. “Esse cartaz entrega tudo. O segredo do filme está ali. Estou quebrando a cabeça para falar dele sem dar spoiler”, conta. Para ela, o desafio está em equilibrar a leitura simbólica com o respeito ao fator surpresa da narrativa.
Mais do que estética, Márcia enxerga nos cartazes um exercício profundo de linguagem visual. “A cor é uma das primeiras mensagens que o cérebro capta. A tipografia, muitas vezes negligenciada, também fala. O alinhamento, o estilo da fonte — tudo carrega significado”, afirma.
A análise de cartazes também se transformou em ferramenta pedagógica valiosa para quem estuda cinema ou design. “Os alunos aprendem como construir um cartaz que seduz ou engana, como usar cor, tipografia, composição. Na direção de arte, cada elemento ajuda a contar a história e a criar atmosfera”.
Essa abordagem mais didática conecta diretamente com as aulas que ela ministra no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), no curso de Direção de Arte para o Audiovisual. “Foi por causa dessas aulas que voltei a produzir conteúdo sobre cartazes. Embora nas aulas a gente fale de direção de arte de forma mais ampla, os vídeos surgiram como complemento para os alunos, com filmes discutidos em sala”, explica. “Eles acabaram impulsionando o retorno das análises, que agora fazem parte de uma proposta integrada: vídeo de direção de arte, paleta de cores e cartaz. Uma proposta que se retroalimenta e reflete os debates que surgem nas aulas”.
Os primeiros cinco cartazes analisados vêm justamente dos filmes trabalhados no curso, como ‘A Meia-Irmã Feia (2025)’, sátira norueguesa baseada no conto da Cinderela, e ‘Sonhos (1990)’, de Akira Kurosawa. Mas a ideia é expandir. “Já comecei a pedir sugestões ao público. Quero analisar o que as pessoas quiserem, não só os que eu gosto”.
Em alguns casos, ela faz questão de analisar o cartaz antes mesmo de assistir ao filme. “Quando é sugestão e ainda não vi, prefiro analisar primeiro, guardar, ver o filme e depois comparar. Geralmente acerto quase tudo. Teve uma vez que me desafiaram com ‘Corra, Lola, Corra (1998)’. Nunca tinha visto. Analisei só pelo cartaz e acertei tudo. A pessoa ficou chocada”.
Um dos exemplos que mais a impactou foi o cartaz internacional de ‘Central do Brasil (1998)’. “É um cartaz considerado feio, mas que eu adoro usar em aula. Mostro junto com outros bonitos e pergunto qual as pessoas preferem. Depois revelo que o mais feio é o mais incrível, porque tem vários simbolismos brasileiros escondidos, como as cores da bandeira. Para o público daqui, pode não fazer sentido. Mas para o exterior, ele é genial”.
Apesar de recente, o retorno do projeto já provoca boas reações. “Tem gente dizendo que quer rever os filmes depois de ver a análise. Uma amiga viu ‘Dogville’ anos atrás e, depois de ler meu post, quer assistir de novo. Isso é muito legal”.
E para quem quer começar a treinar o olhar, ela dá uma dica simples. “Comece com filmes que você conhece bem. Veja o cartaz e tente encontrar ali o que você lembra da história. Depois vá para filmes que conhece menos. É um exercício. Tem que treinar o olhar”.
Todas as semanas, Márcia compartilha suas análises no Instagram @marciaokida, onde também planeja repostar vídeos antigos. E como ela costuma dizer ao final de cada um. “A arte não se explica. Ela nos atravessa.”


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