Cena

Mamáfrica chega a Santos para celebrar a ancestralidade africana

09/09/2025 Isabela Marangoni
Gerson Lima/Divulgação

Depois de passar por Salvador e São Paulo, a exposição Mamáfrica – Ancestralidades Africanas entre Brasil e Cuba desembarca em Santos entre 18 de setembro e 26 de outubro, com programação especial no Museu do Porto. A mostra propõe um mergulho nas heranças africanas compartilhadas entre os dois países, promovendo encontros culturais, seminários, música, feira afro, rodas de conversa e homenagens.

Realizada pelo Instituto Alvorada Brasil e Barthô Naïf, com patrocínio da Autoridade Portuária de Santos (APS), a iniciativa cria um espaço de diálogo entre Brasil e Cuba, unindo arte, economia criativa e valorização das ancestralidades africanas que moldaram suas identidades culturais. A mostra reúne 80 obras de 68 artistas: 23 cubanos do Grupo Bayate e 45 brasileiros de dez estados, todos artistas populares autodidatas, conhecidos como naífes. A curadoria é assinada por Odécio Visintin Rossafa Garcia, Oscar D’Ambrósio, Juliana Candido e Shirlene Pérola Negra. “Os artistas cubanos são agricultores, professores, pessoas comuns, que carregam uma expressão popular genuína. Os brasileiros também vêm dessa vertente ingênua. Trazer esses artistas para dentro de um museu é uma grande vitória, pois dá visibilidade a quem nunca teve acesso acadêmico, mas possui enorme potência criativa”, destaca Odécio.

O evento também marca um momento estratégico de aproximação entre os portos de Santos e Mariel, em Cuba, com seminários sobre exportação, sustentabilidade e cooperação internacional. A programação reúne representantes de ministérios, bancos públicos, agências de comércio exterior, universidades, coletivos artísticos e autoridades de ambos os países.

Heranças africanas

As obras exploram religiosidade, música, gastronomia, festas populares e cotidiano do trabalho, revelando legados africanos presentes tanto no Brasil quanto em Cuba. “O público encontrará aquilo que herdamos com os escravizados: das santerias ao samba, da feijoada ao acarajé, das colheitas às festas. Tudo isso faz parte de uma memória viva”, explica.

A exposição também reúne artistas locais que retratam o cotidiano dos trabalhadores do Porto de Santos, evidenciando a contribuição histórica da população negra à cidade. Entre os pontos altos estão o painel “Trabalhadoras e Trabalhadores”, de Dulce Martins, e a obra “Assim foi a vida dos Negros e Negras no Porto”, de Adriano Dicart. A programação inclui ainda a performance do Coletivo LA Santista, que explora a história oral dos negros no porto, prometendo ser um dos momentos mais marcantes da mostra.

Memória do Porto

Dulce Martins participa com dez painéis que retratam a presença negra e feminina no Porto de Santos. O convite partiu de Odéssio, com quem já havia trabalhado. “Inicialmente, a ideia era um painel grande, mas como pinto no meu quarto, sem ateliê, optei por dez painéis menores, que ficarão permanentemente no museu. Achei interessante, pois percebi que essa parte da história não estava registrada ali”.

A pesquisa da artista percorreu desde o século XVIII até os dias atuais, mostrando transformações no trabalho e o papel das mulheres. Entre os temas, destaca-se a influência do advogado Luiz Gama e a transição do transporte de mercadorias das tropas de carga às ferrovias. “As mulheres, invisibilizadas por muito tempo, ocupam agora espaços que antes eram considerados masculinos. Desde catadeiras de café até operadoras de empilhadeiras, elas são protagonistas na história do porto”, afirma Dulce.

Programação

A exposição também traz uma programação diversa que inclui apresentações musicais, rodas de conversa sobre arte e transformação social, exibição de filmes e a tradicional Festa do Macuco, com cortejo da escola de samba X9 Santista e uma feira afro com 12 bancas de empreendedores locais. Entre 18 e 20 de setembro, seminários e atividades de troca de saberes reunirão artistas e coletivos. No dia 20, a feira comunitária organizada pelo coletivo AfroTu contará com 27 bancas de gastronomia, literatura e artesanato afro-brasileiro. Além disso, haverá lançamentos de livros, performances teatrais, música e outras atrações. “Serão três dias de intensa troca de saberes, celebração e alegria. Queremos livros, não armas; cores, não ódio. Esse é o nosso propósito”, diz Odécio.

Acessibilidade

A exposição terá recursos de acessibilidade, incluindo audiodescrição via QR code, tradução em Libras e monitores capacitados para receber pessoas com deficiência. O catálogo digital estará disponível gratuitamente. “Queremos uma exposição inclusiva, em que todos possam participar, do cadeirante ao deficiente visual. A arte é de todos e para todos”.

Impacto e legado

Mamáfrica vai além da arte: é um projeto político e social. “A arte não é neutra. Ela provoca, indigna e dá visibilidade. Queremos mostrar que o povo preto construiu a riqueza de Santos, do Brasil e de Cuba, e precisa ser reconhecido”, afirma Odécio.

A etapa santista faz parte do circuito nacional do projeto, que teve início em 2023 na Caixa Cultural Salvador. Depois, a exposição segue para o Rio de Janeiro, onde prestará homenagem a Heitor dos Prazeres, e chega a Brasília em 2026. “Queremos que Mamáfrica se torne uma referência cultural no Brasil, lembrando que a arte é uma poderosa ferramenta de transformação social”.