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Mães transformam desafios em espaços de inclusão alimentar

20/06/2026 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

Quando se fala em maternidade, muita gente pensa em cuidado, proteção e força. Foi justamente dessa mistura de amor, preocupação e coragem que nasceram a Fatéri Vida sem Glúten (@faterisemgluten) e a Mátrika Comidas Especiais (@matrikacomidas), empresas criadas por mães que transformaram dificuldades vividas dentro de casa em projetos de acolhimento e inclusão alimentar.

Tanto Letícia Lamberti quanto Adriana Fernandes chegaram ao empreendedorismo pelo mesmo motivo: os filhos. O que começou com dores, insegurança e uma longa busca por respostas médicas acabou se tornando um trabalho voltado à segurança alimentar e à qualidade de vida de pessoas com doença celíaca e restrições alimentares.

A história da Fatéri começou com Arthur, filho de Letícia, que desde pequeno sofria com fortes dores abdominais. “Ele sempre teve muita dor na barriga. Demorou uns seis anos para descobrirmos”, relembra.

Já Adriana enfrentava uma rotina difícil ao lado do filho Leonardo, que ainda bebê apresentou alergias alimentares severas. “Ele não dormia, vomitava, era horrível. Primeiro descobrimos a alergia à proteína do leite de vaca. Tirei o leite da minha alimentação porque queria continuar amamentando. Mas ele não estabilizava. Depois vieram soja, trigo e vários outros alimentos”, conta.

Experiências
Há quase uma década, elas encontraram um cenário de pouca informação e quase nenhuma opção segura no mercado. Adriana lembra que mães recorriam a grupos nas redes sociais para descobrir quais produtos poderiam consumir. “Nossa vida era ligar para SAC de empresa para perguntar sobre contaminação. Existiam listas compartilhadas entre mães com produtos considerados seguros”.

Mesmo antes do diagnóstico definitivo, Letícia percebeu a mudança no filho depois de retirar o glúten da alimentação. O problema seguinte veio logo depois: encontrar alimentos que ele pudesse comer. “Gastamos mais de R$ 200 em quatro pães e ele não gostou de nenhum”.

Foi aí que ela começou a produzir os próprios alimentos em casa. Formada em jornalismo, abandonou os planos de abrir um ateliê convencional para evitar contaminação cruzada. “Comecei a fazer pão para ele”.

Adriana também mergulhou em um universo completamente novo. Radialista e diretora na área de televisão infantojuvenil, passou a estudar tecnologia de alimentos e montou uma cozinha profissional. Poucos meses depois, a Mátrika já fornecia refeições para hospitais de referência. “Com três meses de operação, o Einstein já comprava da gente”.

Referência no mercado
Hoje, as duas empresas se tornaram referência em alimentação inclusiva. A Fatéri, no Boqueirão, virou um espaço de acolhimento para pessoas com doença celíaca e outras restrições alimentares. Já a Mátrika atende hospitais, laboratórios, companhias aéreas e consumidores finais, oferecendo produtos livres dos principais alergênicos.

Mais do que criar receitas, as duas precisaram desenvolver processos rígidos para evitar contaminação cruzada. “Tudo precisa ter certificado de que não contém glúten. Os funcionários não podem entrar com comida de fora”, explica Letícia.

Na Mátrika, o desenvolvimento das receitas também exigiu criatividade. “Nosso desafio era criar receitas que simplesmente não existiam. Como fazer brownie sem farinha de trigo, sem ovo e sem manteiga?”, brinca Adriana.

Mas, para as duas, o mais importante vai além da técnica. Letícia conta que muitos clientes se emocionam ao entrar na Fatéri. “Tem gente que senta para comer um pão francês e chora”. O pão criado para o filho, apelidado de “pão maravilha”, acabou virando símbolo da loja.

Adriana também destaca o valor afetivo da alimentação. “Comida é convivência, é vida social. Nosso trabalho é permitir que as pessoas participem desses momentos sem medo”.

No fim, tanto as empresas nasceram da mesma necessidade: garantir que seus filhos pudessem viver com segurança, dignidade e afeto. E foi justamente esse cuidado que acabou acolhendo muitas outras pessoas. “É tão simples para a maioria das pessoas sair para tomar um café”, resume Letícia. “Mas para quem tem doença celíaca não é. Aqui eu quero que elas se sintam em casa”.