
Há 47 anos, a Páscoa tem um significado que vai muito além do chocolate para o Lar Espírita Mensageiros da Luz, no bairro Encruzilhada, em Santos. A tradicional loja de ovos de Páscoa representa fé, resistência e a principal campanha de arrecadação da instituição, que hoje acolhe 32 crianças, jovens e adultos com deficiência sem retaguarda familiar.
A loja funciona até o sábado de Aleluia, 4 de abril, de segunda a sábado, das 10h às 21h, e aos domingos e feriados, das 13h às 21h, na Avenida Ana Costa, 434, ao lado da Unimed Santos.
A história começou de forma simples — e quase improvável. “Quando eu cheguei aqui, eu tinha 27 anos. Meu pai frequentava a casa, e a dificuldade financeira já era muito grande, como continua até hoje”, lembra a presidente Edna Daguer, ligada à instituição há 50 anos.
Naquele período, ela e o pai eram os únicos comerciantes entre os frequentadores. A diretoria buscava alternativas para arrecadar recursos, mas havia limites claros: nada que envolvesse jogos de azar ou venda de bebidas alcoólicas.
Foi então que surgiu a ideia de montar uma loja de Páscoa. A inspiração veio da juventude do pai, que vendia produtos sazonais na Praça da Independência.
Chave inesperada
Após conseguir — e perder — temporariamente um espaço no Shopping Parque Balneário, Edna caminhava desanimada pelo Gonzaga quando encontrou um amigo. “Ele colocou a mão no bolso, puxou um molho de chaves e disse: ‘Pega, a loja é sua’. Foi uma das coisas mais emocionantes que eu já recebi”. O ponto ficava na Praça da Independência. Ali nasceu a primeira loja.
As prateleiras foram montadas com madeira reaproveitada. Voluntárias forraram as estruturas. Os pacotes eram preparados em um mezanino improvisado e desciam por um pequeno elevador artesanal. “Era tudo muito precário. As cestas eram feitas com caixas de papelão, forradas com papel de presente doado. A palha a gente buscava na feira”.
Mesmo assim, chegaram a montar mais de 100 cestas para empresas naquele formato improvisado. “E assim começou. Hoje estamos na 47ª loja. Direto. Não deixamos de fazer nem na pandemia”.
Páscoa da pandemia
Em 2020, a loja estava pronta para abrir na Rua Tolentino Filgueiras quando tudo fechou. “No dia em que íamos abrir, aconteceu a pandemia. A gente não entendia nada de venda online”.
Em dois dias, um voluntário estruturou o sistema digital. Outro grupo organizou as entregas. “Vendemos tudo. Não sobrou um ovo. A maravilha é que Deus existe e Ele não nos desampara”.
No ano passado, outro episódio reforçou a crença da equipe. No sábado de Aleluia, após o encerramento das vendas, uma forte chuva atingiu a cidade. “Quando acabamos a prece de encerramento, o gesso do teto caiu todo. Mas já tínhamos recolhido tudo. Esperaram a gente acabar para mandar a chuva”, conta.
Se no início o lucro da loja garantia a manutenção do Lar por um mês inteiro, hoje cobre, no máximo, dez dias de despesas.
A instituição compra os ovos de Páscoa como qualquer comércio, sem descontos especiais. Mesmo assim, cada unidade é embrulhada individualmente, com sacola, fita, etiqueta e montagem de cestas. “Quando você recebe o pacote, sabe que quem te presenteou está fazendo uma caridade e dando um chocolate com amor”.
A despesa mensal da instituição gira em torno de R$ 400 mil. A equipe inclui psicóloga, assistente social, fonoaudióloga, três fisioterapeutas, enfermeira, coordenadora e duas médicas contratadas, além de voluntários.
Só a dieta enteral – via sondas – custa R$ 32 mil a cada 15 dias. Muitos acolhidos também utilizam medicamentos de alto custo, inclusive à base de canabidiol. “São pessoas especiais. Se você troca a dieta, elas passam mal”.
Única casa da região
O Mensageiros da Luz é a única instituição da Baixada Santista que oferece moradia permanente para esse perfil de acolhimento. “Muitas mães só ficam tranquilas quando conseguem o acolhimento aqui”.
Há novos pedidos urgentes, mas ampliar o número de vagas exige contratação de equipe, o que também representa um aumento imediato do custos.
Além da loja de Páscoa, o Lar mantém um lojão beneficente, brechó permanente, as famosas fogazzas do Inverno Quente, campanhas de doação e busca novos associados. Cada acolhido recebe um benefício do governo, além de verbas públicas da saúde e assistência social. O restante depende de campanhas e solidariedade.
Vida dedicada
A relação de Edna com a instituição começou antes mesmo da loja — e nasceu de uma busca pessoal. “Eu já tinha ido a outros centros. Um amigo me convidou para conhecer a casa. Eu disse: ‘Eu só vou se eu me sentir bem lá. Eu preciso encontrar Deus’”.
Era uma terça-feira. A palestra daquela noite parecia dirigida a ela. “Parecia que tinha sido feita para mim. E, a partir daquele dia, eu não fui mais embora”.
Edna enfrentava um período difícil. Se sentia perdida. No Lar, encontrou sustentação. “Eu acredito que seja uma missão de vida. Essa casa me fez ficar em pé”. Hoje, meio século depois, é ela quem ajuda a manter a instituição de pé.
Liderar com cuidado
Edna diz que seu papel não é de autoridade, mas de afeto. “Eu tenho um papel de liderança, mas procuro agir com energia amorosa”.
Cuidar de quem cuida também faz parte da gestão. Quando a enfermeira-chefe recebeu um convite para fazer voluntariado na África e não tinha recursos, a equipe organizou uma vaquinha e viabilizou a viagem.
Em outro episódio, um funcionário que não via o pai há 20 anos precisou viajar às pressas para Recife após um acidente. A casa também se mobilizou. “São pessoas que dedicam a vida aqui. A gente precisa olhar para elas”.
Edna costuma dizer que os “milagres” acontecem quando a necessidade aperta. Se recorda de uma ocasião em que a mesa da secretaria estava coberta de contas atrasadas. Um amigo visitou a casa, perguntou o valor total e determinou o depósito integral. “São milagres que acontecem quando você anda no trilho da integridade”.
Ajudar quem precisa
O gerente Luciano Santos está no Lar há 34 anos. Chegou jovem e ficou. Se formou em Administração, fez MBA, participou de congressos e acompanhou a profissionalização da instituição.
Ainda assim, os desafios permanecem. As exigências técnicas aumentam, a folha de pagamento é alta e os recursos são limitados. “É impossível trabalhar numa casa dessas e não vestir a camisa. A gente acha que está ajudando, mas está sendo ajudado”.
A vice-presidente Maria Inês Lamberti Jayer chegou em 2006 para ajudar na loja de Páscoa. “Disseram que era só na Páscoa. E eu fui ficando”.
Hoje dedica praticamente o dia inteiro à instituição: administração, captação de recursos, contato com médicos e busca por medicamentos. “Tem muito trabalho e pouca ajuda. A gente corre para todos os lados”.
O Lar precisa de voluntários e doadores. Uma das formas mais simples de colaborar é por meio da Nota Fiscal Paulista, cadastrando o CNPJ da instituição (46.781.142/0001-34).
Depois de 50 anos de dedicação, Edna admite o cansaço. “Às vezes eu estou exausta de estender o chapéu”. Mas não cogita desistir. “Se estamos aqui, é porque a nossa missão é essa”.
E resume o espírito da casa que transformou chocolate em resistência. “As pessoas chegam pela dor — e ficam pelo amor”.


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