
Fruto de uma investigação quase detetivesca que percorreu arquivos, cemitérios e encontros com descendentes, o livro ‘Anna Costa – Muito além de uma avenida’, de Fabíola Savioli e Alejandro Nascimento, será lançado no dia 24 de agosto, às 17 horas, durante a Flis – Feira Literária de Santos. A obra reconstrói a trajetória de Anna Costa e de seu marido, Mathias, desmistificando lendas e recuperando fatos apagados pelo tempo — incluindo a verdadeira origem do nome da principal avenida de Santos e a publicação da primeira e única fotografia do casal.
O projeto nasceu a partir de uma inquietação: por que uma das avenidas mais importantes de Santos leva o nome de uma mulher sobre a qual pouco ou nada se sabia? A pergunta motivou Alejandro Nascimento a dar continuidade a uma pesquisa iniciada pelo historiador Jaime Mesquita Caldas, referência na história santista e vicentina. “A Anna Costa era praticamente um fantasma. Estava no nome da avenida, mas não havia uma foto, uma data exata de nascimento ou de morte. Quando o Sr. Jaime faleceu, senti que precisava continuar esse trabalho”, conta Nascimento.
A investigação começou em 2007 com um levantamento dos túmulos de personalidades sepultadas no Cemitério do Paquetá. A preocupação com o desaparecimento de bustos e documentos impulsionou a busca por registros antes que a memória se perdesse por completo. A morte de Caldas, em 2008, serviu como impulso para uma jornada que levou Alejandro de Santos ao Rio de Janeiro — até que, de forma quase mística, encontrou os restos mortais de Anna Costa no Cemitério de São João Batista. “Eu nunca tinha ido naquele setor, mas algo me levou até lá. Quando olhei, vi o nome dela: Anna Sodré Bloem. Fiquei arrepiado”, relata. No mesmo jazigo estavam Mathias Costa, assassinado em 1889, e outros membros da família.
A descoberta foi o ponto de virada para o aprofundamento da pesquisa genealógica. “Sem genealogia, seria impossível montar essa história. Conseguimos identificar os filhos do casal, descendentes vivos, conexões com outras famílias importantes”, explica Nascimento. Uma das fontes mais valiosas foi Heloísa Maria Mathias Costa, bisneta de Anna Costa, hoje com 93 anos. Guardiã de cartas, documentos e raríssimas fotografias do século XIX — inclusive a única imagem conhecida de Anna e Mathias juntos —, foi ela quem deu rosto e afeto à história. “Foi com ela que tudo começou a ganhar forma”, conta Fabíola Savioli.

Broche
Na contracapa da obra, uma memória afetiva ilustra a delicadeza do resgate. “Quando nasci, vovó Aninha me presenteou com um delicado broche”. O objeto, reproduzido na capa do livro, simboliza a conexão familiar mantida por dona Heloísa. “A joaninha no broche representa transformação. Foi isso que buscamos: transformar a memória em verdade histórica”, diz a escritora.
Além de revelar fatos esquecidos, o livro corrige mitos reproduzidos ao longo dos anos — como a narrativa de que Mathias teria pedido, em seu leito de morte, que a avenida levasse o nome da esposa. “Isso é lenda. O acordo com a prefeitura já estava feito dois anos antes da morte dele”, esclarece Nascimento.
Mathias Costa foi um comerciante português influente em Santos, cuja trajetória terminou tragicamente com um tiro na testa, em 1889, em meio a disputas de terras. Anna Costa, por sua vez, era de uma família tradicional do Rio de Janeiro e teve uma passagem breve, porém marcante, por Santos. Casou-se com Mathias, teve cinco filhos, ficou viúva ainda jovem, voltou a se casar e teve mais uma filha — que se tornaria cantora lírica. Passou seus últimos anos no Rio, mas sua memória foi eternizada por amor. “Foi Mathias quem abriu a avenida e pediu que levasse o nome da esposa”, afirma o autor.
Mais do que uma biografia, ‘Anna Costa – Muito além de uma avenida’ é um mergulho na história de Santos, na genealogia de famílias fundadoras e na maneira como as memórias — coletivas e afetivas — são construídas, distorcidas e, por vezes, esquecidas.
Lançamento
Publicado pela Editora Comunicar, o livro equilibra o rigor da pesquisa com uma linguagem acessível, pensada tanto para o público geral quanto para estudiosos. “Nos preocupamos em não tornar a leitura pesada. Queríamos que qualquer leitor conseguisse acompanhar a história e, ao mesmo tempo, deixamos um material útil para pesquisadores”, explicam os autores.
O lançamento acontece no dia 24 de agosto, durante a Flis – Feira Literária de Santos, no Parque Balneário. Às 15h30, os escritores participam de um bate-papo no palco da feira e, em seguida, estarão no estande 13 da Editora Comunicar para uma sessão de autógrafos.
Além da participação na Flis, os autores planejam publicar, em breve, o levantamento completo de personalidades sepultadas em Santos — outro desdobramento da pesquisa iniciada com o nome de uma mulher que virou avenida. “A história da Anna Costa mostra como a memória pode se apagar — ou ser resgatada com sensibilidade, rigor e uma pitada de mistério”, conclui Alejandro.


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