
Depois de mais de uma década de idas e vindas, revisões minuciosas e diálogos atravessando fronteiras, o escritor e tradutor santista Alessandro Atanes celebra, no início de 2026, a publicação brasileira de ‘Viagem à língua do porco-espinho’, obra premiada do poeta peruano Óscar Limache. O livro chega ao país pela Editora Caravana e já está em pré-venda.
A história da tradução, no entanto, começa bem antes. O primeiro contato de Atanes com a obra aconteceu em 2010, durante uma viagem a Lima. “Conheci o Limache lá e voltei para casa com uma edição mexicana do livro. A tradução começou como uma aventura, sem pressa, sem prazo”, relembra.
A primeira versão ficou pronta em 2012. Desde então, tradutor e poeta mantiveram um diálogo contínuo, com encontros virtuais e revisões conjuntas. “Fizemos ‘encontrões’ online: uma semana inteira conversando uma hora por dia. Mais recentemente, em 2022, decidimos fechar o arquivo e tentar publicar”.
Tradução e desafios
Para Atanes, traduzir poesia vai muito além da equivalência lexical. “Traduzir um poema é manter o que ele quer dizer e, ao mesmo tempo, a música do poema. Existe uma imagem linda de um grupo argentino que diz que traduzir é ‘seguir uma partitura flutuante’”.
Um dos principais desafios, segundo ele, está nas nuances culturais do espanhol falado em diferentes países. “Uma palavra no México significa uma coisa; no Peru, outra. Há verbos que carregam conotações de briga, de amizade ou até um sentido sexual, dependendo do contexto. Você não traduz a palavra: traduz o contexto”.
A proximidade entre português e espanhol, embora facilite o trabalho, também exige cautela. “O ‘pé da letra’ precisa ser evitado. Às vezes é uma questão de ritmo, de solenidade. Se o poema é formal em espanhol, preciso encontrar uma solução igualmente formal em português”.
Referências
‘Viagem à língua do porco-espinho’ reúne poemas sobre cidades históricas, mitológicas e contemporâneas, sempre em diálogo com obras literárias, filmes e acontecimentos ligados a esses lugares. “Os poemas têm sempre esse duplo assunto: a cidade e uma obra que fala daquela cidade”, explica Atanes.
O livro também estabelece um diálogo explícito com As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, citado já na epígrafe. “Há inclusive um poema em que Marco Polo conversa com Kublai Khan, como no livro do Calvino”.
Mito e memória
A parte final da obra é dedicada a Lima, cidade natal do autor. “Ele constrói uma mitologia da cidade: fala dos terremotos, do cinema, da infância, da espera constante pelo grande abalo que pode derrubar tudo”, observa.
Um dos poemas homenageia Maria Reiche, pesquisadora alemã que dedicou a vida ao estudo das Linhas de Nazca. “Ela fugiu do nazismo e viveu no deserto até os anos 1990. É um poema belíssimo, que brinca inclusive com o ritmo da palavra ‘paz’ em espanhol e em português”.
Bibliodiversidade latino-americana
Para Atanes, a publicação do livro no Brasil vai além do reconhecimento de uma obra premiada — vencedora do Prêmio Copé de Poesia, no Peru, no fim dos anos 1980. “É uma aposta na bibliodiversidade. Quando se fala em literatura peruana, logo se lembram de Mario Vargas Llosa, Blanca Varela ou César Vallejo. Mas existe muito mais”.
Expectativas e recepção
O livro está em pré-venda, com lançamento ainda sem data definida. “Quero ver como a pré-venda se comporta, comprar alguns exemplares e pensar no lançamento. Agora é atravessar essa etapa”, diz.
Para ele, a recepção ainda discreta reflete um problema maior. “As pessoas conhecem muito a literatura americana e europeia. A dos nossos vizinhos acaba ficando de lado. Você fala de Jorge Luis Borges, todo mundo conhece — mas para por aí. É um problema até geopolítico”.
Ato político
Essa constatação atravessa sua visão sobre o papel da tradução. “Eu falo muito da tradução como um ato de diplomacia cultural. Traduzir é criar pontes”. Segundo ele, há diferentes estratégias: trazer o livro para a língua de chegada ou levar a língua até o leitor. No caso da obra peruana, a escolha foi clara. “Tentei causar um certo estranhamento no português, porque o livro está cheio de referências”.
Esse estranhamento, ressalta, não fecha portas. “Não é uma dificuldade que impede a leitura. É uma dificuldade que oferece a mão”.
Para Atanes, o sentido do trabalho está menos na quantidade de exemplares vendidos e mais na circulação das ideias. “Comecei a traduzir porque estava lendo coisas que não existiam em português e pensei: mais pessoas precisam ler isso”, diz. “A literatura não precisa correr. Ela precisa continuar se movendo”.


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