
A trajetória de uma vida dedicada ao serviço público nem sempre começa com grandes planos ou discursos inflamados. Às vezes, nasce de uma inquietação silenciosa, de um chamado interno que não se cala. Foi assim com a servidora pública que protagoniza esta história – uma mulher que, desde os 18 anos, decidiu caminhar ao lado dos invisíveis, daqueles que vivem à margem e que, com uma frequência bastante incômoda, só são lembrados como estatísticas.
Sua escolha pela Assistência Social veio cedo, junto com o primeiro concurso público. Entrou na universidade e, antes mesmo de se formar, já estava nas ruas, atuando diretamente com a população em situação de rua. Foi nesse contato diário, duro e real, que a inquietação virou compromisso – e depois, pesquisa. As angústias da prática foram levadas para a universidade, onde ela buscava entender, com profundidade, as raízes de um problema que se mostrava crônico, complexo e, acima de tudo, humano.
Na gestão pública, mergulhada nos requerimentos de vereadores e nas propostas que, muitas vezes, feriam direitos fundamentais, encontrou o tema de seu mestrado e, mais tarde, o embrião do livro que viria a escrever. Um trabalho que não apenas analisou os dispositivos legais ou o papel das políticas públicas, mas que também voltou séculos no tempo para buscar, nos textos medievais, as origens da visão social sobre quem vive nas ruas.
Esses textos antigos revelaram mais do que ela esperava: o preconceito histórico e enraizado que ainda persiste. A própria palavra “mendigo” vem de “mendicus”, termo latino que significava “incompleto”. Já naquela época, essas pessoas eram retratadas como perigosas, enganadoras ou simplesmente inúteis. O mais inquietante era perceber como muitas dessas representações se mantêm vivas, ainda que travestidas de modernidade.
Na Idade Média, não havia políticas públicas. Os chamados “abrigos” eram erguidos junto às muralhas das cidades, mantendo literalmente à margem aqueles que fugiam da fome e da violência no campo. Eram espaços de exclusão e trabalho forçado. Ao comparar essas práticas com algumas propostas ainda apresentadas por parlamentares atuais, a conclusão era perturbadora: evoluímos muito menos do que gostamos de acreditar.
O livro, resultado dessa pesquisa densa e apaixonada, escancara a necessidade de uma abordagem intersetorial. A assistência social, sozinha, não é capaz de resolver o problema. É preciso integrar políticas de saúde, educação, trabalho e moradia. Mais do que isso: é preciso sensibilizar a sociedade para que veja com outros olhos aqueles que, por diversas razões, perderam quase tudo – menos sua dignidade.

De perto
A autora não escreve de longe. Sua vivência começou aos 20 anos, nas madrugadas frias e nas esquinas esquecidas. Era a mais jovem da equipe. Sua forma de criar vínculos foi, ao mesmo tempo, leve e afetiva: uma prancheta rosa, canetas coloridas e um sorriso aberto. Ganhou o apelido de “Dona Barbie” (“Eu era loira, na época”) – apelido que, com o tempo, virou símbolo de afeto e respeito.
Um dos momentos mais marcantes dessa trajetória veio quando, após um assalto, seu pai a acompanhou ao trabalho e ouviu, de um homem em situação de rua, uma frase que selou tudo: “O senhor deve ter orgulho da sua filha. Ela fala com a gente do mesmo jeito que fala com o prefeito”. Era a confirmação de que o olhar humano, o tratamento com respeito, ainda que simples, tem o poder de restaurar alguma parte do que foi perdido.
E não faltam histórias que confirmem isso. “Primeira semana de trabalho . Abordei um grupo aqui na Praça José Bonifácio. Conversei, peguei os dados.Voltei dois dias depois e cumprimentei, chamei pelo nome. Um deles começou a chorar. E aí eu pensei: “caraca, o que eu fiz de errado?”.Estava aprendendo, né? Aí ele falou: “você me chamou pelo meu nome. Você lembrou o meu nome. Eu não lembro qual foi a última vez que alguém, que não seja meu colega aqui de calçada, me olhou no olho e me chamou pelo meu nome”. É a partir desta confiança que se constrói o caminho de resgate”.
Tem a história do rapaz que, durante dois anos, resistiu à ajuda. Dizia se chamar de um jeito, dava informações desencontradas. Até que, certo dia, quando os técnicos encontraram inconsistências nos dados que ele havia fornecido e foram questioná-lo, percebeu que o esforço para ajudá-lo era real, cedeu. Disse seu verdadeiro nome. Com isso, os documentos vieram, e com eles, a família que há 15 anos o julgava morto. O reencontro, marcado por lágrimas e abraços, foi fruto da persistência e da construção de vínculos reais.

Não existe perfil único
A vivência acumulada mostrou que não existe um perfil único da população em situação de rua. São, em sua maioria, homens que perderam vínculos familiares ou enfrentaram o desemprego. Alguns lutam contra o vício, outros têm histórias acadêmicas e falam outros idiomas fluentemente. A diversidade é a regra. E o que os une, quase sempre, é a ausência de uma rede de apoio.
A resposta da gestão pública precisa acompanhar essa complexidade. O programa Fênix, por exemplo, é mais do que uma porta de entrada para o mercado de trabalho – é um recomeço. Com foco no desenvolvimento humano, o projeto ajuda os participantes a reconstruírem suas histórias. Alguns voltam a estudar, outros reencontram antigas profissões. E todos ganham a capacidade de sonhar.
Hoje, Julianna dirige a Proteção Social Básica. Uma estrutura silenciosa, porém essencial. Os CRAS e centros de convivência espalhados pelos territórios garantem o acesso a direitos e fortalecem laços que previnem rupturas. Nesse trabalho muitas vezes invisível, reside a semente da transformação verdadeira.
Quando perguntada sobre o que mais a emociona em toda essa trajetória, ela não hesita: “A resistência da humanidade”. Porque mesmo em condições extremas, viu brotar a solidariedade, o cuidado com animais de estimação, a gratidão por um bom-dia, um olhar nos olhos, um nome lembrado. Viu pessoas que muitos preferem ignorar revelarem força, generosidade e desejo de pertencer. “Meu trabalho sempre foi sobre ver pessoas onde muitos só veem problemas”, ela diz. E talvez seja aí, exatamente aí, onde mora a verdadeira revolução.


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