
Após o sucesso das edições anteriores da Escola de Criadores, o Instituto KondZilla, organização sem fins lucrativos fundada pelo produtor e empresário Konrad Dantas, amplia sua atuação na Baixada Santista. Voltado à transformação social por meio da educação, cultura e valorização da periferia, o projeto oferece formação gratuita em Economia Criativa para jovens de Cubatão, Santos e Guarujá, com foco em audiovisual, cultura digital, empreendedorismo e tecnologia. As inscrições seguem abertas pelo site.
A próxima turma, com 25 vagas, será presencial e ocorrerá de agosto a dezembro. As aulas acontecem três vezes por semana, das 14 às 18 horas, com foco em temas como design, marketing, redes sociais, mundo do trabalho e educação financeira. Podem se inscrever jovens entre 17 e 22 anos que residam em Cubatão, Santos, Guarujá ou São Paulo. O processo seletivo acontece em duas etapas: primeiro, o candidato se inscreve e conclui uma trilha online; depois, participa de uma seleção presencial em agosto. Todo o processo será acompanhado por e-mail e WhatsApp, canal oficial da Escola.
TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Para Jacqueline Marques, coordenadora geral da Escola de Criadores, a expansão é fruto do êxito alcançado nas edições anteriores. “Em 2022, realizamos uma turma no Guarujá com resultados muito positivos. Desde então, jovens de outras cidades da Baixada passaram a procurar o curso. Este ano conseguimos ampliar o alcance graças ao apoio de parceiros e patrocinadores que acreditam no projeto”, afirma.
Mais do que formação técnica, a proposta do Instituto é promover transformação social por meio da vivência periférica. “O jovem da quebrada já vem de uma grande escola: a faculdade da rua. A criatividade, nesse contexto, é um recurso valioso para quem quer trabalhar com comunicação, audiovisual e marketing”, explica Jacqueline. “Assim como o funk, que está na base da trajetória do KondZilla, a cultura da periferia transforma vidas”.
Os resultados comprovam esse impacto. “Já formamos três turmas — no Guarujá, em São Paulo e em Maceió —, com índice zero de evasão. Hoje temos ex-alunos atuando como filmmakers, editores, roteiristas e diretores criativos. Alguns já participaram de projetos com o SporTV, outros conseguiram bolsas e estão na faculdade”, destaca.
A metodologia é baseada em trilhas formativas práticas. Cada módulo propõe uma criação concreta, conectada ao território onde os jovens vivem. “Tudo foi construído de forma colaborativa, ouvindo educadores, especialistas e os próprios alunos”, diz Jacqueline.
Além dos conteúdos técnicos, o curso também aborda temas como saúde mental, justiça climática e educação financeira. “Tem uma frase do Paulo Vieira que ouvi num podcast e que resume bem: ‘ninguém passa ileso pela pobreza’. Por isso, nossas trilhas integram esses temas de forma transversal, com rodas de conversa, mentorias e projetos autorais”, completa.
A versão online da Escola, que já está em andamento, democratiza o acesso para jovens de todo o país. A experiência presencial, por sua vez, oferece uma imersão mais profunda e conectada com o território. “Tudo o que aprendemos presencialmente foi sistematizado para o online, garantindo a mesma qualidade”, afirma.
CURSOS
Com carga horária total de 40 horas, o curso é dividido em três trilhas: produção audiovisual, criação de conteúdo para redes sociais e projetos e negócios de arte e cultura. Cada trilha dura sete semanas. O ciclo formativo online começou em junho e vai até dezembro de 2025. As atividades incluem aulas gravadas, materiais de apoio, desafios com premiações, encontros ao vivo com convidados especiais e suporte via WhatsApp.
A comunicação direta pelo WhatsApp é uma das estratégias para garantir acessibilidade. “É uma ferramenta simples, que funciona mesmo em celulares com pouca memória ou internet limitada. Além disso, fortalece os vínculos entre a equipe e os participantes”, explica Jacqueline.
O acompanhamento continua após o término do curso. “Mantemos uma rede ativa de ex-alunos, oferecendo oportunidades de trabalho, bolsas, mentorias e até convites para retornarem como educadores. A ideia é que o curso seja uma porta de entrada, não um ponto final”.
A representatividade é um dos pilares centrais do projeto. “Nosso público é majoritariamente preto, periférico e LGBTQIA+. Por isso, também discutimos letramento racial, diversidade e direitos humanos. Queremos formar pessoas conscientes de sua identidade e do seu poder de transformação”.
VIABILIZAÇÃO CULTURAL
A trajetória de Konrad Dantas, o KondZilla, é uma inspiração permanente. “Ele veio do não acesso e construiu um dos maiores canais de música do mundo. Isso mostra que é possível. Eu mesma fui formada por um projeto social. Hoje coordeno esse projeto com o mesmo propósito: garantir que mais jovens possam sonhar e viver da própria criatividade. Eu sei que dá certo, porque eu vivi isso”.
Viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), o projeto é 100% gratuito. Os alunos da modalidade presencial recebem uma bolsa de R$ 500 por mês durante quatro meses, para investir na própria formação. “Muitos compram equipamentos, pagam softwares ou ajudam a família. Já teve aluno que trocou o celular para captar conteúdo ou deu entrada num computador para editar vídeos”, exemplifica.
IMPACTO EDUCACIONAL
O impacto vai além dos alunos. “Contratamos profissionais e fornecedores do próprio território — dos educadores a quem prepara o lanche. Isso movimenta a economia local e fortalece a rede criativa da região”.
Quanto aos principais desafios para transformar talentos periféricos em protagonistas, Jacqueline é direta. “O maior desafio é o acesso. O jovem já vem com 150% de entrega — a gente só potencializa e dá ferramentas. Mas é preciso garantir continuidade, com bolsas, mentorias, políticas públicas e um compromisso real com a diversidade e com as pautas que atravessam as periferias do Brasil”. E conclui. “Nosso papel como Instituto é justamente esse: garantir que os jovens não só entrem, mas permaneçam e avancem nos espaços de onde sempre foram excluídos”.


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