Inclusão

Instituto celebra 10 anos com retorno simbólico a Santos

28/02/2026 Isabela Marangoni
Acervo Inspara

Criado a partir da experiência pessoal da fisioterapeuta e ex-atleta de nado artístico Camila Lazzarini, o Instituto Inspiração Paradesportiva (Inspara) completa dez anos retomando a cidade que marcou o início de sua trajetória. Para celebrar a data, a organização promove em Santos, no dia 14 de março, uma programação inclusiva a partir das 10h, no Sesc (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida).

Mais do que ensinar um esporte, o instituto atua na inclusão de pessoas com deficiência por meio da arte, do movimento e do fortalecimento da autonomia.

A ideia do instituto surgiu em um momento de transição profissional de Camila, quando decidiu deixar a área de ortopedia para se reaproximar do esporte. “Eu sempre amei o esporte. Fui atleta de alto rendimento dos seis aos dezoito anos, participei da Seleção Brasileira, e depois de formada comecei a buscar novos caminhos. Foi quando descobri o esporte paralímpico”, relembra.

Ao conhecer a natação paralímpica, surgiu a pergunta que mudaria sua trajetória: existiria nado artístico para pessoas com deficiência? No Brasil, não havia iniciativas estruturadas. A busca se expandiu para outros países. “Descobri que existia no Japão, no Canadá, nos Estados Unidos e no México. Mas cada país fazia no seu canto”, conta.

O contato com essas experiências levou à realização, em 2015, do primeiro simpósio internacional da modalidade, em Taiwan, reunindo representantes de sete países. O encontro impulsionou a formalização do projeto no Brasil. “Voltei e pensei: isso precisa chegar a mais pessoas. Não dava para parar ali. Foi quando fundamos o instituto”.

Ponto de partida
A relação com Santos começou justamente nesse período, quando a cidade foi escolhida para sediar o 2º Simpósio Internacional de Nado Artístico Adaptado, liderado e organizado pelo Inspara. O evento reuniu representantes de sete países e 72 atletas, tornando-se um marco decisivo para a consolidação da atuação do instituto. “Santos foi quem acolheu a gente. Ali foi o pontapé inicial do instituto. Voltar agora, dez anos depois, tem um significado muito forte”.

O evento ajudou a dar visibilidade à iniciativa logo no primeiro ano. “Ele colocou o Inspara no cenário internacional e também nacionalmente. A gente virou referência na troca de informações sobre o nado artístico inclusivo”.

Desde o início, a proposta nunca foi apenas formar atletas. “A gente diz que o nado artístico não é a nossa atividade-fim. Ele é a ferramenta. É o meio para transformação, para quebrar tabus e mostrar que não existe um único corpo ideal para esse esporte”.

Segundo Camila, a própria vivência como atleta influenciou a filosofia do projeto. “O esporte artístico carrega muita estética e pressão por perfeição. A nossa proposta é mostrar que ninguém precisa se encaixar. Você pode ser quem é e ainda assim praticar nado artístico”.

Crescimento
Em uma década, o Inspara deixou de ser um projeto pequeno para se tornar uma organização estruturada. “Começamos com três alunos. Hoje já são 28 em São Paulo”. Para a fundadora, a principal mudança foi o amadurecimento institucional. “O que mudou foi o profissionalismo. A essência continua a mesma, mas a gente se capacitou, se especializou e conseguiu expandir”.

Esse crescimento também se reflete na abordagem pedagógica, que prioriza autonomia e protagonismo dos alunos, especialmente aqueles com deficiência intelectual. “Trabalhamos para que eles sejam protagonistas. Até algo simples, como escolher o tamanho do uniforme, vira exercício de autonomia”.

O impacto do projeto ultrapassa o espaço das aulas e influencia a vida social dos participantes. “A gente coloca a pessoa com deficiência num lugar que a sociedade não está acostumada a olhar. Ver alguém dançando na água, sincronizado com música, maquiado, feliz, quebra muitos tabus”.

Desafios do setor
Apesar dos avanços, o instituto ainda enfrenta obstáculos estruturais. “A gente atua numa área muito específica: nado artístico e deficiência. São dois campos ainda pouco explorados”.

Entre os principais desafios estão a falta de profissionais capacitados, o acesso a piscinas adequadas e a captação de recursos. “Projetos via lei de incentivo ajudam, mas são verbas carimbadas. Muitos custos ficam fora disso. Conseguir patrocínio direto ainda é difícil”.

Retorno à cidade
A celebração em Santos inclui atividades no Sesc, vivência de surf inclusivo em São Vicente e um luau na praia. A programação foi construída com participação dos próprios alunos. “Perguntamos o que eles queriam fazer. Muitos falaram praia, música, dança. Então organizamos tudo junto”.

O objetivo é criar experiências marcantes para participantes e público. “Espero que as pessoas saiam com a sensação de que é possível. Que o nado artístico pode ser acessível e que, com oportunidade, qualquer pessoa pode fazer o que quiser”.