Cena

Há 63 anos o mundo das artes perdia o mito Marilyn Monroe

05/08/2025 Gustavo Klein
Reprodução

Marilyn Monroe morreu em 4 de agosto de 1962. Tinha 36 anos. O laudo do Instituto Médico Legal de Los Angeles apontou overdose aguda de barbitúricos. Havia doses letais de pentobarbital e hidrato de cloral no sangue e no fígado. Frascos vazios de remédios foram encontrados ao lado da cama. O suicídio foi considerado “provável” pelo legista Thomas Noguchi, com base na ausência de sinais de violência, em relatos médicos e na análise da equipe de prevenção ao suicídio. Amigos e profissionais relataram que ela já havia tentado se matar antes. Sofria de depressão, mudanças bruscas de humor e tomava remédios controlados há anos.

A morte comoveu os Estados Unidos e foi manchete nos principais jornais do mundo. Marilyn foi enterrada no dia 8, no cemitério Westwood Village, em uma cerimônia íntima organizada por Joe DiMaggio, ex-marido, com quem manteve contato até o fim da vida. Ele vetou a presença de executivos de Hollywood, que considerava cúmplices do desgaste emocional da atriz.

Com o passar dos anos, surgiram teorias que questionaram a versão oficial da morte. Livros e documentários falaram em assassinato, acobertamento, overdose acidental, ligação com políticos. Em 1982, o promotor de Los Angeles chegou a abrir uma investigação preliminar. Nada foi comprovado. O suicídio continua sendo a versão aceita oficialmente.

Início como modelo

Antes de ser Marilyn Monroe, era Norma Jeane Mortenson. Começou a carreira como modelo em 1945, com 19 anos. Seu visual chamou atenção de fotógrafos de pin-ups. Trabalhou com nomes como Earl Moran e posou para calendários e capas de revistas masculinas. Em 1946, assinou contrato com a 20th Century-Fox e adotou o nome artístico. Fez pequenas pontas em filmes até ganhar destaque no início da década de 1950.

Construção da estrela

A Fox queria transformar Marilyn em uma estrela capaz de atrair o público masculino às salas de cinema. Era o fim da era das atrizes independentes e duronas dos anos 1940, como Katharine Hepburn e Barbara Stanwyck. Monroe seria a nova loira símbolo, substituta de Betty Grable. Desde o começo, ela participou da criação da imagem que vendia. Escolheu fotos, se aproximou de colunistas, planejou aparições públicas. Inspirava-se em Jean Harlow, estrela dos anos 1930. Copiou o tom de cabelo e contratou o mesmo cabeleireiro.

Sua imagem foi moldada para o consumo masculino. Filmes, fotos e entrevistas reforçavam o estereótipo da loira sensual, inocente e disponível. Os figurinos acentuavam o corpo. A voz era propositalmente infantilizada. Ela usava respostas ambíguas para reforçar a imagem pública. Quando perguntaram o que vestia em um ensaio nua, respondeu: “Estava com o rádio ligado”.

Os papéis seguiam o mesmo padrão. Era sempre a secretária, a modelo, a showgirl.

O corpo produto

Sua figura era associada ao chamado “American Way of Life”. A garota pobre que virou estrela. Histórias sobre orfanatos e famílias adotivas foram exageradas para criar uma narrativa de superação. Seu corpo foi transformado em marca. Tinha proporções padronizadas para o imaginário masculino. Tornou-se referência de beleza e desejo. Era o oposto da sofisticação de Grace Kelly, também loira, mas de origem rica e imagem recatada. Monroe era a loira acessível.

Com o tempo, essa imagem pesou. O público e a crítica confundiam a personagem com a mulher real. Achavam que ela era de fato burra e frágil. Isso a impediu de ser levada a sério como atriz e empresária. Estudou atuação com professores renomados, como Lee Strasberg e Constance Collier. Tentou papéis mais densos, como em Bus Stop e Os Desajustados. Também criou sua própria produtora. Mas enfrentava resistência. Era vista como instável, atrasava filmagens, não decorava falas. Na verdade, lidava com endometriose, uso de medicamentos e crises emocionais constantes. Por contrato, tinha permissão para se ausentar durante o período menstrual.

Sexualidade

Marilyn projetava uma sexualidade considerada moderna nos anos 1950. Não representava perigo, como as mulheres fatais da década anterior. Era desejável e ingênua ao mesmo tempo. Foi a primeira estrela a sugerir que o sexo podia ser natural e prazeroso. Sua figura se alinhava ao discurso do pós-guerra sobre o papel da mulher como esposa, amante e mãe. Mostrava desejo sem parecer ameaçadora. Foi chamada de símbolo sexual por colunistas e críticos. Mas isso teve um custo. Outras mulheres não se identificavam com ela e não a apoiavam. Isso só mudaria depois da morte.

Monroe tentou sair do papel de sex symbol e ser reconhecida como artista. Mas não conseguiu escapar do controle da indústria. Também era usada como símbolo de consumo: loira, branca, associada à modernidade dos cosméticos, automóveis e eletrodomésticos dos Estados Unidos. Sua imagem foi explorada por marcas de shampoo, perfumes e bebidas. Foi copiada por outras atrizes, como Jayne Mansfield, Mamie Van Doren e Diana Dors, contratadas por estúdios para repetir a fórmula.

Legado

Após a morte, Marilyn se tornou um ícone cultural. Foi homenageada por artistas como Andy Warhol e citada por escritores como Truman Capote. Centenas de livros e filmes foram feitos sobre sua vida. Seu nome virou marca registrada. Produtos com sua imagem continuam sendo vendidos. Ela aparece em rankings de maiores estrelas do cinema e símbolos da cultura pop. Foi reconhecida pelo American Film Institute como uma das maiores atrizes de todos os tempos.

Ao mesmo tempo, seu legado segue sendo discutido por pesquisadores de gênero e feminismo. Algumas análises a tratam como vítima do sistema de estúdios. Outras destacam sua inteligência e habilidade de manipular a própria imagem. Marilyn foi vista como representação da cultura de massas, do consumo e do entretenimento. É lembrada pela fama e pelo sofrimento. Pela beleza e pela angústia.

Em 2024, sua casa em Los Angeles foi reconhecida como patrimônio cultural. Sessenta e três anos após a morte, ela continua sendo símbolo de um tempo, de uma indústria e de um modo de ver as mulheres que ainda está em debate.