Cena

Graziela Santos lança livro sobre recomeços e resistência

28/10/2025 Isabela Marangoni
Divulgação

Com reflexões profundas sobre medo, incertezas, superação e gratidão, a escritora negra e deficiente visual Graziela Santos lança seu primeiro livro, “Graziela Entrelinhas”, no sábado, 1º de novembro, na Estação da Cidadania de Santos, das 15 às 19 horas.

O evento, que promete marcar a cena literária da região, contará com apresentações do grupo musical do Lar das Moças Cegas, do projeto Músicas para a Alma e da performance “Dançar a Vida – Dança Criativa Sensível”, além de um coquetel de confraternização com apoio do Petit Verdot.

Mais do que uma conquista literária, a obra representa o recomeço de uma vida transformada pela arte e pela superação. “Desde menina, eu sempre tive o sonho de ser escritora, mas a vida foi me levando para outros caminhos”, conta Graziela. “Durante a pandemia, perdi a visão por conta de uma retinopatia diabética. Achei que meu sonho tinha acabado. Mas foi ali que tudo começou de novo”.

Entrelinhas de uma nova vida

O ponto de virada veio com o incentivo de amigos e a lembrança das palavras do pai, já falecido. “Ele sempre me dizia para não guardar meus textos só para mim”.

Foi o amigo Gilberto Ferreira, também deficiente visual e criador do canal Palavras, Imagens e Sons, quem reacendeu sua confiança. “Ele transformou um dos meus textos em um vídeo com narração e audiodescrição. Quando vi, achei que ele estava louco. Mas ele disse: ‘Se eu ouvi, outras pessoas também vão ouvir’. E eu comecei a acreditar”.

Assim nasceu o perfil “Graziela Entrelinhas”, no Instagram, e o canal no YouTube, onde seus textos ganharam público.

Em um sarau da Afpesp Santos, ela apresentou “Heróis Entre Nós”, texto em homenagem ao pai — e um dos pilares do livro. “Foi o primeiro texto que recitei para ele em vida e o mesmo que li no velório. Hoje ele está no livro, e é muito especial para mim”.

Em outro sarau, conheceu Cíntia Panca, da editora independente Ateliê do Universo, que a convidou para publicar. “Eu disse que não escrevia tão bem. Ela respondeu: ‘Escreve sim’. Meu pai falava para publicar, o Gilberto também… achei que era pra ser.”

Parcerias e fé

Para viabilizar a publicação, Graziela contou com o apoio do Med.Álise – Centro de Hemodiálise, onde realiza tratamento. “Eles me ajudaram a criar uma vaquinha online para cobrir os custos com diagramação, ilustração e impressão de 100 exemplares. Quando consegui o valor, pensei: é real, vai acontecer”.

O processo teve o cuidado da editora Cynthia Panca e da ilustradora Márcia Okida, que traduziram a essência da autora em palavras e imagens. “Elas captaram a minha identidade mesmo. Eu não enxergo, então tudo foi feito com muita paciência e sensibilidade”.

O livro reúne textos que misturam metáforas, memórias e reflexões sobre deficiência, hemodiálise, fé, amor e resistência. “Escrever para mim é uma válvula de escape, o meu recomeço, o meu sonho. Se o que eu escrevo tocar pelo menos um coração, para mim já é um ganho”.

Encanto da escrita

Entre os textos mais marcantes estão “Heróis Entre Nós”, em que Graziela homenageia figuras do cotidiano — “Super-heróis não são só os da Marvel; são o pai, o avô, a pessoa que faz hemodiálise, que luta contra o câncer” — e “Por Amor: o Encanto da Escrita”, sobre o poder transformador da palavra. “A escrita quebra barreiras, aproxima pessoas e eterniza. São palavras que o vento não leva”.

Graziela cita o poeta Mário Quintana como inspiração. “No túmulo dele está escrito: ‘eu não estou aqui’. Ou seja, ninguém morre de verdade — a gente continua no coração de alguém. E é isso que eu quero com o meu livro: permanecer nas pessoas”.

O ver e o viver

O título “Graziela Entrelinhas” sintetiza o propósito da autora. “‘Entrelinhas’ é o meu olhar sobre a vida. As pessoas dizem ‘não parece que você não enxerga’, e eu respondo: será mesmo que eu não enxergo? O que é enxergar, afinal?”.

Para ela, a escrita também é uma forma de combater o capacitismo e mostrar que a deficiência não define ninguém. “Às vezes eu esqueço que não enxergo. Só lembro disso quando as pessoas me limitam. Mas eu não me prendo nisso, senão eu não saio do lugar”.

Com o livro, Graziela quer inspirar outras pessoas com deficiência ou em tratamento de saúde. “A gente namora, cuida da casa, escreve, canta, dança. A deficiência não apaga isso. Quero trazer luz para quem acha que não pode — porque pode”.

Tecnologia como aliada

Hoje, Graziela escreve com o auxílio de um computador e o leitor de tela NVDA, usando atalhos de teclado. “Eu digito, reviso, corrijo. Leio muito PDF e redes sociais, do meu jeito. Meus textos são 100% meus”.

Além do lançamento do dia 1º, a autora participa amanhã (29) da Semana Leia Santos 2025, onde divulgará a obra, e será homenageada pela Secretaria de Cultura de Cubatão.

O lançamento é uma celebração da força e da voz de uma autora negra que, apesar dos desafios, conquistou seu espaço na literatura, conectando emoções e experiências humanas universais. “‘Graziela’ sou eu. ‘Entrelinhas’ é a vida”, resume ela. “E se o que eu escrevo despertar um novo olhar sobre o mundo, já valeu a pena”.