Cena

Festival de Música Vocal nasce para fortalecer a cena do canto

26/02/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

A tradição coral de Santos, construída ao longo de décadas, ganha novo impulso com a criação do 1º FEMUV — Festival de Música Vocal. Idealizado pela cantora lírica e maestra Denise Yamaoka, o evento surge de uma inquietação antiga: a ausência de um festival estruturado dedicado exclusivamente ao canto na cidade.

O FeMuv acontece de 27 de fevereiro a 7 de março, ocupando diferentes espaços culturais com programação gratuita que inclui concertos, mesas de debate, leituras abertas de coro e workshops de voz. As inscrições podem ser feitas pelo site ou redes sociais do festival @femuvsantos.

A maestra afirma que sua própria trajetória evidencia essa lacuna. “Comecei a estudar música muito cedo, no conservatório, sempre tive contato forte com a música vocal. Santos sempre teve atividade coral intensa, com o Ars Viva, o Coral Municipal e vários coros infantis. Eu cresci nesse meio”, lembra.

Apesar da tradição, a formação profissional frequentemente exigiu deslocamento. “Tive que sair da cidade para ter oportunidades. Participei de festivais em Campos do Jordão, Santa Catarina, Minas Gerais. Santos produz muitos cantores, mas a gente acaba se encontrando fora daqui, porque não havia uma atividade voltada especificamente ao canto”.

Programação diversa
A proposta do festival é reunir públicos com diferentes níveis de experiência, desde pessoas sem formação musical até cantores avançados. “O público pode esperar muitas atividades voltadas para o canto, tanto para quem não lê partitura quanto para quem já tem nível intermediário ou avançado”, explica Denise.

Parte das ações é aberta ao público, enquanto outras exigem inscrição prévia. A agenda inclui workshops, palestras e atividades formativas, abordando fundamentos do canto lírico, saúde vocal e expressividade cênica. “A leitura aberta e algumas oficinas são para todos. Já os workshops individuais são voltados a cantores com experiência que passaram por seleção”.

Entre os formadores estão professores ligados a universidades públicas paulistas, convidados por sua atuação em pesquisa e performance. “Quis trazer professores com conhecimento atualizado sobre pedagogia vocal e performance. São artistas atuantes e docentes da USP, UNESP e Unicamp”.

Nomes nacionais e internacionais
A programação artística reúne apresentações com diferentes enfoques. Um dos destaques é a Gala Lírica Santista, formada por cantores da própria região. “Convidei artistas líricos daqui que muitas vezes tiveram que sair para trabalhar. Cada um apresenta um recorte de repertório, formando um concerto só com cantores santistas”.

O festival também recebe a soprano Edna de Oliveira, considerada uma das principais vozes do país, em recital de canto e piano.

Já o concerto de encerramento terá regência do maestro brasileiro Luiz de Godoy, radicado na Alemanha e diretor artístico do coro Meninos Cantores de Hamburgo, com trajetória internacional e colaborações com importantes formações europeias.

Para Denise, a presença desses profissionais tem dimensão simbólica. “Trazer artistas consolidados faz com que os cantores daqui se reconheçam e se valorizem. Mostra que existe possibilidade real de formação e carreira”.

Formação de público
A diversidade de participantes é vista como um dos principais desafios da organização. “É um desafio grande, mas a experiência em outros festivais ajuda. Estruturamos repertórios acessíveis e atividades em que os mais experientes apoiam os iniciantes”.

O festival também presta homenagem ao compositor santista Almeida Prado, cuja produção vocal atravessa diferentes formações. “Ele compôs para coro infantil, feminino, leigo, profissional, com orquestra. Essa diversidade permite construir atividades pedagógicas para vários níveis”.

Resgate cultural
Para Denise, o FeMuv tem papel estratégico no fortalecimento da cena vocal local, especialmente após os impactos da pandemia. “O canto coral é coletivo e sofreu enfraquecimento. O festival é uma forma de resgatar essas atividades e também a história operística da cidade”.

Ela avalia que o canto ainda ocupa espaço menor do que a música instrumental no cenário cultural. “A música instrumental é muito valorizada, mas o canto ainda é visto como algo fácil. Só que cantar é um processo cognitivo complexo e exige formação”.

Expectativa e legado
Denise espera que o público leve do festival uma experiência afetiva com a música. “O que eu mais quero é que as pessoas sejam felizes cantando. O canto traz bem-estar, faz bem para a saúde e é terapêutico. Espero que saiam do festival felizes, conectadas e inspiradas”.