
A Festa do Livro de Santos completa 10 anos em 2025 com fôlego renovado e uma proposta ainda mais abrangente. Realizada pela organização da sociedade civil ConCidadania, a iniciativa que nasceu como um sonho da jornalista e defensora dos direitos humanos Elia Alves hoje se firma como um dos projetos mais engajados da cena cultural santista.
Neste ano, a programação gratuita se estende de agosto a setembro e se divide em três fases temáticas, com atividades espalhadas por diversos bairros da cidade. “Começamos com dois dias de atividades. Agora teremos um mês inteiro. Isso mostra como a população se sente parte da proposta”, afirma Fabiana Mesquita, jornalista e organizadora, que há cinco anos coordena o projeto. “A gente começa leve, incentivando a leitura, depois entra em uma discussão mais acadêmica e encerra com uma reflexão crítica sobre os genocídios do século XX e XXI. Começa light e termina com revolução”, resume.
Três fases, múltiplas vozes
A primeira etapa acontece de 7 a 9 de agosto, com o tema “Ler [também] é a minha praia!”, voltado ao incentivo à leitura. Entre os destaques estão a participação do programa Leia Santos, uma exposição sobre Sebastião Salgado, atividades para crianças, oficinas de ilustração, rodas de conversa e a presença do coletivo Mulherio das Letras Indígenas.
Na segunda fase, a ConCidadania marca presença com estande próprio na Feira Literária de Santos (FLIS), promovida pela Academia Santista de Letras. No espaço, 45 autores da Baixada Santista terão a oportunidade de lançar livros, interagir com o público e apresentar seus trabalhos. “Foi uma honra sermos convidados. Seremos a única organização com um estande exclusivo, ao lado de grandes editoras”, comemora Fabiana.
A terceira fase, de 13 de agosto a 6 de setembro, traz o tema “Guerra ou genocídios no século 21 – o que os livros do século 20 (e anteriores) já nos disseram?”. Com foco na literatura crítica, essa etapa propõe reflexões sobre violências contemporâneas — do Congo à juventude negra nas periferias brasileiras. Destaque para a participação da Sociedade dos Poetas de Gaza, grupo que traduz e compartilha poemas escritos por pessoas vivendo sob os horrores da guerra. “Alguns desses poetas já morreram, mas queremos que suas vozes não desapareçam”, afirma Fabiana.
Literatura como cidadania
A Festa do Livro mantém curadoria aberta, com atenção especial a autores que estão fora do circuito tradicional do mercado editorial, como escritores periféricos, indígenas, pessoas trans e com deficiência. “Para a gente, uma pessoa que nunca teve dinheiro para publicar não é menos escritora por isso. Nossa missão é dar protagonismo a quem normalmente não tem espaço”, reforça Fabiana.
A diversidade também se expressa nas formas de narrativa. Um dos momentos mais aguardados da programação é o encontro com Sérgio Popygua, cacique guarani, filósofo e pedagogo, que compartilhará oralmente os saberes de seu povo. “Ele não traz um livro. Ele traz a oralidade, que também é literatura.”
Nos bairros
Além das ações na sede da Estação da Cidadania, no Gonzaga, a Festa se espalha por bairros como Jardim São Manuel e Vila dos Criadores, com atividades em escolas públicas, centros comunitários e associações de bairro.
O encerramento acontece no dia 6 de setembro, a partir das 10h, na Casa das Culturas, com sarau, batalha de rima, oficinas e apresentações musicais — tudo em clima de piquenique coletivo.
Livros que transformam
Para Fabiana, a literatura é ferramenta de transformação social e pessoal. “Li uma frase que dizia: ‘Um livro é um jardim de bolso’. É isso. Ele permite sonhar, criar repertório, enxergar além da realidade. A escrita também cura, denuncia e transforma”.
Entre as ações de destaque voltadas ao público infantojuvenil, está a exibição do filme Gaby — sobre uma menina com paralisia cerebral que aprende a escrever com os pés — no Cineclube Lanterna Mágica, na Unisanta, às 18h30. Após a sessão, o público poderá conversar com o jovem escritor Ricardo Avelino, que escreve utilizando os olhos por meio de um aplicativo. “Capacitismo também é violência. Nosso objetivo é tirar a literatura do pedestal e colocá-la ao alcance de todos”, completa.
Coletivo e voluntário
A ConCidadania é uma organização 100% voluntária. “Todo mundo aqui trabalha por amor ao projeto. Comunicação, curadoria, limpeza… tudo é feito com esforço coletivo. Esperamos que mais pessoas se associem, mesmo com pequenas contribuições, para manter o básico. No fundo, estamos construindo um espaço comum, afetivo e transformador”, afirma.
E a transformação segue. A expectativa é envolver cada vez mais escolas, jovens e comunidades, ampliando o alcance da leitura como exercício de cidadania. “Como disse Paulo Freire: A educação não transforma o mundo. A educação transforma as pessoas. As pessoas transformam o mundo”.


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