
A repetição é uma prisão que pode ser enfrentada como uma pena perpétua ou um período de aperfeiçoamento para se libertar dela. Um exercício que, assim como qualquer um, demanda constância. Longe de um discurso da meritocracia neoliberal, é um aperfeiçoamento pessoal, que preza pelo cultivo das nossas diferentes relações e pela forma como nos relacionamos consigo mesmos. No filme Feitiço do Tempo (1993) esse cárcere intimista é materializado.
A comédia americana dirigida por Harold Ramis conta a história de Phil Connors (Bill Murray), um repórter de TV que não tem saco pra cobrir mais um Dia da Marmota, evento anual na cidade de Punxsutawney, na Pensilvânia, mas é escalado para trabalhar na nova edição da festa. Após a reportagem, a equipe do telejornal fica presa no distrito por conta de uma tempestade de neve que fecha todas as saídas do local. De volta ao hotel, depois de um dia cansativo, Connors finalmente vai descansar, mas acorda com uma surpresa: ele está revivendo o Dia da Marmota.
A proposta cria uma dinâmica com um vasto leque de possibilidades para as situações cômicas do filme. Desde um humor mais simples e situacional, como quando o protagonista tenta tirar vantagem do conhecimento de tudo o que vai acontecer, seja roubando, evitando situações constrangedoras ou se aproveitando para seduzir qualquer mulher da cidade, até um humor mais pesado, com as investidas suicidas desesperadas para tentar fugir do ciclo sufocante.
Os planos ‘repetidos’, com um mesmo acontecimento em dias diferentes sendo gravados com o mesmo enquadramento, contribuem na construção dessa atmosfera.
O que é mais atraente nesse filme é a maneira como consegue conciliar uma forma cinematográfica popular, sem muitos rodeios e com apelo humorístico semelhante ao de qualquer outra comédia hollywoodiana do mesmo período, com uma mensagem que é passada de um jeito pouco expositivo. O motivo das repetições é um mistério para o protagonista, assim como é para o espectador. E se tudo começa sem explicação, o fim também é repentino.
A moral de uma história está sempre inerente a ela e a forma que é contada, e essa é uma obra que entende isso. As sensações provocadas pelas técnicas empregadas no filme (fotografia, montagem, som…) são suficientes para que a ideia seja transmitida. O cinema basta. Parece óbvio, mas não é. São sutilezas que elevam o patamar do trabalho.
A sessão de Feitiço do Tempo termina com uma lição de amadurecimento como único meio para evitar uma trajetória rumo à autodestruição. A condenação do personagem principal só deixa de ser um purgatório quando ele decide, de fato, viver essa rotina. Uma solução simples que carrega um significado mais robusto, assim como a linguagem do próprio filme, que traz uma repaginada na tradição da causa e efeito da narrativa clássica de Hollywood.
Outros filmes e séries apelam para mesmo tema
O sucesso de O Feitiço do Tempo não ficou restrito aos anos 1990. O recurso narrativo de repetir o mesmo dia até que algo mude se tornou um verdadeiro subgênero, explorado por roteiristas de vários cantos do mundo. A ideia de um “loop temporal” rendeu novas leituras, da comédia ao suspense, passando pela ficção científica e até pelo romance adolescente.
No cinema, a lista é longa. Entre os títulos mais lembrados está Antes que Termine o Dia, em que o protagonista tenta alterar o destino trágico de sua amada. A ficção científica ganhou uma versão mais eletrizante em Contra o Tempo, com Jake Gyllenhaal revivendo os mesmos oito minutos para evitar um atentado. Já em No Limite do Amanhã, Tom Cruise enfrenta alienígenas num campo de batalha que sempre recomeça, até que a repetição se torne sua maior arma.
A Netflix também investiu no formato em ARQ (2016), thriller de ficção científica que se passa quase todo em um laboratório, com personagens tentando entender por que a realidade se repete.
Mais leve, Palm Springs resgatou a comédia romântica para contar a história de dois convidados de um casamento presos no mesmo dia, equilibrando humor e existencialismo. Para o público jovem, The Map of Tiny Perfect Things trouxe a busca por beleza nas pequenas coisas como resposta ao tempo congelado.
Na televisão, o efeito dominó foi ainda mais variado. Russian Doll (2019), da Netflix, fez sucesso com Natasha Lyonne vivendo e morrendo de formas diferentes numa noite que nunca acaba. Supernatural brincou com a ideia no episódio Mystery Spot, em que Dean morre repetidamente diante do desespero de Sam.
Doctor Who dedicou vários capítulos a loops, com destaque para Heaven Sent, considerado um dos melhores momentos da série em sua história. Até a Marvel mergulhou na brincadeira em Loki (2021), ao explorar linhas temporais e repetições.
Entre as produções mais recentes, destaque para Reset (2022), série chinesa que se tornou fenômeno de audiência ao mostrar dois jovens presos em um ônibus prestes a explodir. A cada tentativa, eles acumulam novas pistas para evitar a tragédia, num enredo que combina suspense, drama humano e crítica social.
A repetição infinita de um mesmo dia sempre carrega uma pergunta maior: o que faríamos de diferente se tivéssemos uma segunda chance? Seja pelo riso, pela ação ou pela reflexão, esse dilema continua a seduzir criadores .



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