Cena

Exposição lança o olhar feminino sobre o Centro Histórico de Santos

08/07/2026 Isabela Marangoni
Arquivo pessoal

O Centro Histórico de Santos visto pelos olhos de quem o percorre, ocupa e ressignifica. É dessa experiência que nasce Mulheres no Centro II. A exposição coletiva reúne 20 artistas visuais da Baixada Santista e fica em cartaz até 2 de agosto, na Futrica Economia Criativa.

Idealizadora e curadora da exposição, a artista Natália Brescancini conta que o projeto surgiu da união entre sua pesquisa sobre a produção artística feminina e a experiência à frente do Jibóia Ateliê, no Centro, para acolher mulheres artistas. “Sempre trabalhei pesquisando a produção de mulheres artistas e a representação do feminino, e o Jibóia também surgiu com essa intenção de ser um lugar seguro para a produção das mulheres. A exposição é o resultado desse processo, mas a própria construção dela também faz parte da formação. Pensamos coletivamente o que é produzir uma exposição e vivemos todas essas etapas juntas”, explica.

Voltado para artistas iniciantes e experientes, o projeto é desenvolvido em três etapas: práticas de ateliê, criação coletiva da exposição e montagem da mostra. A proposta é fortalecer uma rede de artistas da região por meio da troca de experiências e da criação coletiva.

Nesta edição, o processo criativo começou nas ruas do Centro Histórico. Durante três meses, as participantes percorreram a região em caminhadas, observações, coletas e pequenas intervenções, produzindo trabalhos que refletem sobre os espaços ocupados pelas mulheres na cidade.

A escolha do Centro também dialoga com o crescimento da cena cultural independente da região. “Escolhi montar o ateliê no Centro justamente por essa diversidade e pelo movimento crescente de espaços independentes. Existe uma rede muito forte, construída em parceria entre esses lugares, como acontece com a Futrica. O Centro tem uma riqueza cultural muito grande e um movimento independente bastante potente”.

Território como partida
Se na primeira edição o autorretrato conduzia as reflexões, desta vez o caminho foi o inverso. As artistas partiram da experiência com a cidade para chegar às próprias histórias. “Antes, o olhar era para si dentro do território. Agora fomos direto para o território. Fizemos caminhadas, coletas e investigações no Centro. A partir dessa experiência, inevitavelmente acabamos falando de nós mesmas, enquanto mulheres que ocupam esse espaço. Pensar o território é também pensar como os corpos femininos vivem esse território”.

O medo de ocupar o espaço público, a rotina da mulher trabalhadora, as marcas da arquitetura e as memórias afetivas ligadas à região aparecem de diferentes maneiras nas obras. “Existe uma sensação muito presente de acúmulo, sobreposição e fragmento, que vem da própria experiência de caminhar pelo Centro. Também aparece a narrativa do medo na ocupação desse espaço pelos corpos femininos e a realidade da mulher trabalhadora que circula diariamente pela região”.

Outro aspecto marcante foi a memória. “Muitas artistas lembraram que frequentavam o Centro acompanhadas da avó, da mãe ou da tia. Essa experiência de chegar ao Centro pelas mãos de outra mulher apareceu com muita força nas entrevistas e também nas obras”.

Essas lembranças deram origem a percursos que redesenham mapas da cidade e propõem novos olhares para ruas, praças, edifícios e monumentos, ressignificando o território a partir da presença feminina.

Troca e experimentação
Reunindo artistas que trabalham com fotografia, pintura, performance, audiovisual, gravura e outras linguagens, a exposição também revela um processo intenso de experimentação. “Tem artistas que saíram completamente das técnicas que costumavam utilizar para experimentar outras linguagens. Acho que isso é muito fruto da experiência no território e da troca coletiva durante todo o processo”.

Mais visibilidade
Natália espera aproximar o público das artes visuais e ampliar a visibilidade da produção feminina. “Quero que as pessoas conheçam a riqueza da produção dessas 20 mulheres artistas. Ainda existe uma distância muito grande entre o público e as artes visuais em Santos. A cidade tem muitos eventos, mas ainda há poucos espaços e pouco hábito de visitar exposições. Espero que essa mostra desperte esse interesse e também provoque as reflexões que cada trabalho propõe”.