
A Copa do Mundo de 2026 mostrou que a forma de assistir futebol mudou tanto quanto o próprio jogo. Na TV aberta, o SBT apostou na volta de Galvão Bueno. Sua narração continua sendo um raro caso de comfort sound: basta ouvi-la para remeter a outras Copas. O problema é que a nostalgia esbarra em uma transmissão com qualidade de imagem abaixo do esperado.
No extremo oposto está a CazéTV. A qualidade técnica é excelente, mas a experiência é sufocada por dois excessos. O primeiro é a publicidade ostensiva de casas de apostas, que transformou muitos jogos em vitrines para bets. O segundo é uma narração permanentemente gritada, como se volume fosse sinônimo de paixão. Quando tudo é tratado como ápice, a emoção perde força.
Isso sem falar na questão do delay: meus vizinhos estavam comemorando gols pelo menos 15 segundos depois deles terem sido mostrados na tevê paga. Sobraram as transmissões da Globo e do SporTV, sóbrias mesmo que resvalem, eventualmente, na tentação de “conquistar o público jovem”.
Também chamou atenção o ufanismo de parte da cobertura. Sem indicadores concretos, criou-se a expectativa de que o Brasil brigaria pelo título. O desejo falou mais alto que a análise, e a eliminação foi tratada como surpresa quando desde antes da competição começar já se sabia que dificilmente o Brasil iria longe.
As redes sociais também fizeram sua parte. Espalhou-se a falsa informação de que o próximo ciclo representará o maior jejum brasileiro sem conquistar uma Copa. Não é verdade. Entre 1930 e 1958, o Brasil também esperou 28 anos pelo primeiro título.
Fora de campo, vieram episódios difíceis de ignorar. A decisão da FIFA de revogar um cartão vermelho após intervenção do presidente Donald Trump gerou críticas à entidade. Ao mesmo tempo, jogadores que respondem a acusações públicas de estupro disputaram normalmente a competição.
Há ainda um comportamento que merece reflexão: a paixão que se transforma em ódio ao adversário. Torcer faz parte do futebol; incentivar violência, nunca.
Diante desse cenário, fica a pergunta: ainda é possível se encantar com o futebol, seja ele em Copas ou outros campeonatos? Talvez sim, mesmo que para mim seja cada vez mais difícil. Mas cada vez mais pelo jogo em si do que por tudo o que passou a cercá-lo.


Deixe um comentário