Cena

Exposição ‘Fronteiras Invisíveis’ revela a Aldeia Paranapuã no MISS

20/03/2026 Isabela Marangoni
Kelly Jandaia

O que começou como um trabalho de bastidores ganhou protagonismo e se transformou na primeira exposição individual da fotógrafa Kelly Jandaia. Fronteiras Invisíveis abre nesta sexta-feira (20), às 20h, no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), reunindo imagens que dialogam com o cotidiano da Aldeia Paranapuã, território indígena localizado em São Vicente.

O projeto, no entanto, não nasceu com vocação expositiva. Kelly foi convidada para atuar como fotógrafa still — responsável pelos registros de apoio — nos documentários Nhãndê Kuery Mã Hi’ãn Rivê Hê’yn (“Não somos apenas sombras”), dirigido por Dino Menezes. “Não foi uma exposição pensada desde o início. Eu não fui para a aldeia com esse objetivo”, conta. “Quando entreguei as imagens, o Dino percebeu que havia ali um material muito potente. Duas fotos, inclusive, viraram capas do documentário”.

Durante as filmagens, a fotógrafa estabeleceu contato direto com a comunidade Guarani-M’byá — experiência que despertou reflexões sobre os desafios enfrentados pelos povos originários e o papel da arte na ampliação dessas narrativas.

Foi a partir desse olhar despretensioso que se iniciou um processo de curadoria. As imagens, registradas ainda no período pós-pandemia, permaneceram guardadas até a oportunidade de inscrição no edital FACULT – Programa de Apoio Cultural 2023. “Foi uma emoção muito grande. É difícil para um fotógrafo conquistar uma exposição individual”, afirma.

Uma das fotografias da série foi escolhida para o cartaz oficial do documentário, que já percorreu mais de 50 festivais nacionais e internacionais, ampliando o alcance tanto da obra quanto do olhar da artista.

Exposição
Mais do que uma reunião de imagens, Fronteiras Invisíveis propõe uma reflexão sobre limites que não se veem. “Quando a gente fala de fronteiras, não são só as geográficas. A aldeia está aqui, na mesma ilha que a gente, mas existem barreiras culturais, históricas e afetivas”, diz. “Optei por não dar título às fotos. Cada pessoa pode construir sua própria leitura”.

É justamente nesses fragmentos que a exposição encontra sua força: crianças brincando, o trabalho com a produção de mel, cenas cotidianas que revelam a convivência entre o tradicional e o contemporâneo. “Tem criança com celular, tem a natureza, tem o trabalho. Esse contraste aparece de forma natural”.

O contato mais profundo com essa realidade ocorreu durante as filmagens, atravessadas por debates como o marco temporal e a luta pela demarcação de terras. “A gente percebe que não está distante — está muito perto. E, quando se aproxima, começa a se envolver, a querer ajudar, a divulgar”, afirma.

Para Kelly, a arte cumpre justamente esse papel de aproximação. “Não é só sobre imagens bonitas. É sobre contar histórias, provocar reflexão. Às vezes, uma fotografia pode ser um ato de protesto”.

O próprio processo criativo reforça essa dimensão intuitiva. Sem planejar uma série autoral, a fotógrafa registrava imagens nos intervalos do trabalho técnico. “Eu estava ali para fotografar a equipe, mas, em alguns momentos, virava para o lado e captava um detalhe. Acho que esse foi o ‘pulo do gato’”.

Integrar a equipe do documentário também marca sua trajetória em um meio ainda predominantemente masculino. “É uma equipe com 95% de homens. Ter uma exposição só minha também traz uma potência feminina para o projeto”, destaca.

A abertura contará com a exibição dos documentários e um bate-papo com convidados ligados à temática indígena e acadêmica, como o cacique Ronildo Amandios Werá Guarani, a professora Suelen Nhêndúá, o antropólogo Sidney Fernandes e a socióloga Vitória Oliveira.

Fronteiras Invisíveis fica em cartaz até 30 de abril, de segunda a sexta, das 14h às 20h.