
Após uma década afastada dos palcos, a atriz, professora e sindicalista Paula D’Albuquerque retorna ao teatro com o espetáculo “Giz”, obra que entrelaça autobiografia, ficção e denúncia para iluminar os bastidores — muitas vezes invisíveis — do cotidiano escolar. A apresentação acontece hoje (29), às 20 horas, no Sesc Santos, no bairro da Aparecida.
A protagonista fictícia, professora Gizlaine, é fruto de dezenas de histórias reais — vividas, ouvidas e observadas por Paula ao longo de sua trajetória como educadora. A personagem convida o público a mergulhar em um retrato comovente — e frequentemente doloroso — do que significa ser professora no Brasil.
A criação do espetáculo está no acúmulo de experiências. “Trabalho com teatro desde os 17 anos e me afastei depois que passei em um concurso público para professora. Desde então, acumulei histórias e comecei a pensar que um dia devolveria isso em forma de arte”, conta Paula. O retorno à cena se deu como uma necessidade, uma forma de manter o equilíbrio emocional diante do avanço da precarização na educação pública. “Depois de 10 anos longe do palco, a vontade de atuar era intensa — e o tema não poderia ser outro: contar as histórias que vivo todos os dias nas escolas”.
Transformar essas vivências em dramaturgia exigiu escuta, pesquisa e criação coletiva. Com texto assinado por Mô Amorim — também professora — e direção de Kadu Veríssimo, “Giz” se ancora em experiências reais reunidas ao longo dos anos. “Até hoje, muitos saem do teatro sem saber se vivi ou não as histórias que conto. Parte é ficção, parte é realidade — mas nem tudo é pessoal. Nosso material de pesquisa é imenso. Todos os dias, saem reportagens mostrando professores em situações de extrema vulnerabilidade pelo país”.
Entre os desafios enfrentados, conciliar a rotina escolar com o tempo necessário à criação artística é apenas o primeiro obstáculo. “O segundo, talvez ainda mais difícil, é não enlouquecer. Diante de tantas histórias duras, é preciso muito equilíbrio emocional”.
“Giz” não foge de temas espinhosos. A precarização do ensino, o adoecimento mental dos profissionais da educação e a perda de autonomia docente diante de reformas como o Novo Ensino Médio estão no cerne da narrativa. “Entra governo, sai governo, e as mudanças são todas para pior. A educação desceu ladeira abaixo com as últimas reformas, o que acentua o abismo entre ensino público e privado. A suposta flexibilização retira disciplinas essenciais e impõe conteúdos engessados, desconsiderando a singularidade de cada turma”.
A peça tem mobilizado plateias diversas — sobretudo professores, que se reconhecem nas cenas e na personagem. “Entre risos e lágrimas, o público se entrega. Muitos nos procuram depois das sessões para compartilhar suas próprias histórias, que acabamos incorporando ao roteiro”. Em uma dessas ocasiões, uma espectadora revelou que decidiu não desistir da profissão após assistir à peça. Outra, emocionada, lembrou o nome de sua professora da infância. “A frase que mais ouvimos é: ‘essa peça poderia ser sobre a minha vida’”.
Mais do que um espetáculo teatral, “Giz” é um ato de resistência. “A arte é uma arma poderosa — não é à toa que tantos governos tentam silenciar e marginalizar os artistas”, afirma Paula. Sua atuação como presidente do Sindicato dos Professores Municipais de Cubatão também atravessa o trabalho cênico. “Hoje em dia, já não sei se uma coisa se separa da outra. Uso o teatro como ferramenta de denúncia, mas também é no trabalho sindical que reflito sobre o que levo para o palco”.
Atualmente, ela dá continuidade à proposta com a performance “A professora está presente”, intervenção cênica em espaços públicos. “Com tanto material de pesquisa, foi impossível parar em uma única produção”.
Para Paula, o teatro permanece como espaço vital de escuta, encontro e debate. “Em tempos de hiperconectividade e automatização, o palco ainda resiste como território de humanidade. O teatro nos lembra que não somos robôs. Precisamos de afeto, de trocas reais, de contato humano”.


Ótima peça! Adorei…texto, atuações, drama e comédia, muito legal!
Ótima peça! Adorei…texto, atuações, drama e comédia, muito legal!
Vale a pena assistir se vc é da educação ou não! Crítica social muito bem entregue, divertida do começo ao fim! Recomendo