Cena

Espetáculo escolar santista é convidado para festival na Bahia

17/07/2025 Isabela Marangoni
Denise Braga

Criado pelo grupo A Voz do Povo, com alunos da UME Florestan Fernandes, o espetáculo ‘A história que o Brasil não contava’ reconta verdades silenciadas da formação brasileira a partir de uma perspectiva pouco presente nos livros didáticos. A montagem, desenvolvida nas aulas de teatro com o professor e diretor Igô Ferreira, foi convidada a participar do Festival de Teatro Estudantil da Bahia (Festac), que acontece em Salvador entre os dias 8 e 14 de setembro.

Inspirada em samba-enredos como ‘História para ninar gente grande’ (Mangueira, 2019) e ‘Meu nome é favela’ (X-9 Paulistana, 2024), a peça nasceu do desejo de iluminar narrativas invisibilizadas — especialmente as de povos africanos, afro-brasileiros, indígenas, quilombolas e moradores de favelas. “A ideia surgiu das provocações que fiz no início do ano letivo. Quando começamos a estudar histórias africanas e indígenas, percebemos o quanto essas narrativas seguem fora do currículo escolar”, conta Igô. “A partir disso, os alunos começaram a pesquisar personagens históricos e criar uma dramaturgia que refletisse a verdade muitas vezes apagada do Brasil”
O diretor da escola, Paolo Civita vê o teatro como uma atividade positiva para os estudantes. “Conseguimos, por meio das aulas, apresentações e dinâmicas, incentivar e descobrir potencialidades em nossos alunos. Este ano, a temática trabalhada contribui para que eles aprendam a história como ela verdadeiramente aconteceu, sob o olhar dos povos afro-brasileiros e originários”.

O samba da Mangueira, com versos como “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles e Malês”, teve forte impacto no processo criativo. “As meninas se identificaram com essas referências. Cada uma escolheu uma dessas figuras e estudou sua trajetória. Foi assim que nasceu, por exemplo, a cena sobre Carolina Maria de Jesus”.

As contribuições vieram de todos os lados. Um passista mirim da escola de samba X-9 Paulistana levou para a sala o samba-enredo ‘Meu nome é favela’, ampliando o repertório simbólico do grupo. “A montagem virou uma colcha de retalhos potente. Um samba-enredo puxava outro, e palavras-chave nos levavam a músicas, versos, corpos e memórias”.

A construção coletiva incorporou linguagens como capoeira, ladainhas, funk consciente, hip hop e poesia falada. “Quando falamos de quilombo, não tem como não falar de capoeira. Muitos alunos já praticavam fora da escola e trouxeram esse saber para a cena”, diz o professor. Um dos jovens artistas, inclusive, foi premiado no Fescete como sonoplasta, tocando atabaque e berimbau ao vivo.

A música ‘Favela Vive 5’, com participação de Leci Brandão — também homenageada no samba da Mangueira — aparece no espetáculo em forma de poesia. Assim como o funk clássico “Eu só quero ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci…”. “São crianças e adolescentes cantando isso. Dizendo que querem viver com dignidade, com orgulho das suas origens. Isso é potente demais”.

A estreia aconteceu no dia 26 de junho no Festival de Cenas Teatrais (Fescete), reunindo estudantes de diferentes turmas e turnos. O convite para o Festac, na Bahia, veio logo depois. “É muito simbólico levar esse trabalho para lá. Muitas das lutas que estudamos têm origem na Bahia e no Nordeste. Para as crianças, será uma oportunidade de conhecer outros territórios e ampliar ainda mais o sentido do que estão criando”.

Para viabilizar a viagem, o grupo está mobilizando uma campanha de arrecadação e busca apoiadores através das redes sociais @umeflorestan e @igoguaiao. “Vamos lançar uma vaquinha, mas já estamos recebendo contatos de quem quer ajudar — financeiramente ou divulgando. Queremos muito levar essa história para outros lugares”.

O impacto do projeto já se revela nos bastidores. Muitos alunos pisaram no palco pela primeira vez. “Foi mágico. Depois da apresentação, eles contaram o quanto foi importante ter seus pais, avós e amigos na plateia. Uma aluna me disse: ‘A gente está contando uma história que é nossa. Não é inventada. É a nossa verdade’”.

A conexão entre escolas também faz parte da proposta. Igô, que iniciou sua trajetória como estudante de teatro numa escola estadual de São Vicente, convidou dois ex-alunos para integrar a montagem, unindo duas redes de ensino e dois municípios. “Eles atuam como narradores da introdução. É muito forte ver esse ciclo se fechar e se expandir ao mesmo tempo”.

Mais do que uma prática artística, o teatro, para ele, é um espaço de escuta, expressão e reconstrução. “O teatro permite que os alunos aprendam de forma viva. Eles já conhecem essas histórias por outros caminhos — na música, na dança, na vivência. A sala de aula vira o ponto de encontro entre o que eles sabem e o que podem aprofundar”.

E conclui, com uma imagem ancestral. “A gente acredita na filosofia africana do Sankofa — o pássaro que olha para trás com o corpo voltado para frente. É isso que estamos fazendo: aprendendo com o passado para construir um futuro melhor. Se o Brasil não contou essa história, nós estamos contando. E cada um que se junta a essa corrente é mais um. E mais um é mais que dois”.