
A acessibilidade urbana e o direito à cidade estiveram no centro das discussões do painel Arquitetura e Infraestrutura Inclusiva, realizado pelo BS Debate, uma iniciativa do Jornal da Orla em parceria com a Record Litoral e Vale e a Associação Comercial de Santos (ACS). O encontro, sediado na ACS, reuniu quatro especialistas de diferentes áreas para discutir como tornar os espaços públicos e privados da Baixada Santista mais acessíveis a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida, neurodivergentes e idosos.
Participaram do debate Shirley Vedovate, especialista em Arquitetura Humanizada; Mel Godoy e Daisy Gonçalves, conselheiras do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU); e Ana Paula Chacur, especialista em arquitetura sensorial. “A consciência sobre inclusão cresceu, mas ainda estamos engatinhando em muitos aspectos”, afirmou Ana Paula, que participou remotamente. Ela destacou o desafio da acessibilidade para pessoas neurodivergentes e a necessidade de transformar conceitos em ações. “Ainda nos deparamos com escolas sem acessibilidade para cadeirantes. Precisamos tornar a inclusão sensorial uma realidade. Estamos apenas dando os primeiros passos”.
Daisy Gonçalves, cadeirante e servidora pública, foi direta ao apontar a mobilidade urbana como um dos principais gargalos. “O transporte público, as calçadas, os comércios e os serviços seguem sendo pouco acessíveis. Não basta ter norma — é preciso aplicar”.
Como exemplo positivo, citou o plano de vias verdes e inclusivas que está sendo desenvolvido para a região central de Santos. “É uma tentativa de planejar o espaço com foco nas pessoas. É um avanço, mas precisa sair do papel”, ponderou. Para ela, cada saída de casa é um cálculo de riscos. “Será que o ônibus vai ter elevador funcionando? E o banheiro do destino, será acessível? É muito mais complexo do que parece”.
Para Shirley Vedovate, falta vivência e sensibilidade para que a acessibilidade seja levada a sério. “Já coloquei clientes em cadeiras de rodas para subir rampas malfeitas. Só assim entenderam o que é uma inclinação inadequada. A ficha só cai quando vivenciam a dificuldade. A acessibilidade não é um favor, é um direito”.
Ela também criticou a aplicação incorreta de normas, como o uso de vasos sanitários com abertura frontal — proibidas em espaços públicos. “Ainda encontramos essas peças em escolas”.
Da teoria à prática
Mel Godoy reforçou que a acessibilidade precisa estar presente desde o início do projeto, e não ser um “adendo” de última hora. “Falta conhecimento técnico, mas falta também sensibilização. A arquitetura precisa ser pensada para todos. Essa é a base do desenho universal”.
Ela e Ana Paula também chamaram atenção para os espaços sensoriais, que costumam ser voltados apenas para crianças. “O autismo não termina na infância. Precisamos pensar também em jovens e adultos”, disse Mel. Ana Paula complementou com uma crítica aos espaços ditos multissensoriais em aeroportos e shoppings. “Esses ambientes devem auxiliar a regulação emocional durante uma crise, e não funcionar como espaços tão confortáveis que incentivem a permanência. Precisamos diferenciar sala sensorial, sala de acomodação e sala de integração sensorial”.
Ana Paula destacou ainda a experiência da Clínica-Escola do Autista de Santos como pioneira em acessibilidade sensorial. “A maior dificuldade foi convencer o poder público da importância de pensar o espaço desde a infância. Não por má vontade, mas por desconhecimento”.
Praia e inclusão
Outro ponto sensível discutido foi o acesso à praia. “Faz 15 anos que sou cadeirante e posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes entrei no mar”, revelou Daisy. Apesar de Santos contar com o programa Praia Acessível, a limitação de horários e estrutura ainda exclui muitas pessoas. “Não adianta ter uma passarela que para no meio da areia. A praia só é acessível se chega até a água”, completou.
Educação é a chave
Ao final do encontro, Shirley anunciou a criação do primeiro Centro de Referência e Formação em Educação Inclusiva da Baixada Santista, com projeto já estruturado em parceria com a Secretaria de Educação de Santos, da prefeitura, e o Rotary Club. “Será um espaço para formação continuada de profissionais da educação, saúde e cuidadores. A inclusão está batendo à porta das escolas, e os educadores precisam estar preparados para acolher com qualidade”.
A mensagem final do encontro foi clara: a inclusão começa pela escuta e pelo respeito às vivências das pessoas. “Às vezes, o espaço não é 100% acessível, mas a forma como a pessoa é recebida faz toda a diferença”, lembrou Mel.


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