
O escritor Guilherme Monteiro lança ‘Falo de Amor’, livro de poesia que reúne décadas de escrita represada e marca um momento de virada em sua trajetória pessoal e literária. O lançamento acontece neste sábado (31), a partir das 15h, na Estação da Cidadania.
Após 46 anos de atuação profissional na área da comunicação, foi durante a pandemia que Guy decidiu dar vazão ao que vinha acumulando silenciosamente ao longo da vida. “Decidi escrever tudo o que estava represado”, afirma. O primeiro impulso veio em 2020, com a publicação de ‘166 poemas para começar’, seu livro de estreia. “Ali eu resolvi: chegou a hora. No ano seguinte me aposentei, mas mesmo assim demorei um ano e meio para sentar no notebook. Eu estava muito bloqueado”.
O desbloqueio veio acompanhado da percepção de que sua escrita era, na verdade, um retrato de toda uma existência. “Um amigo que fez a montagem do livro falou: ‘cara, você escreveu a tua vida’. E é isso mesmo. É um trabalho represado que agora vai fluir”, diz. Para o autor, 2026 simboliza esse novo ciclo. “Vai ser o meu ano. Tudo o que está sendo preparado agora finalmente vai ganhar forma”.
Duplo significado
Em ‘Falo de Amor’, o título carrega múltiplos sentidos. “O falo pode ser entendido como verbo e como substantivo. Como substantivo masculino, é um jeito do homem enxergar o amor”, explica. Guilherme, no entanto, faz questão de afastar leituras restritas. “Não é o amor do homem pela mulher. É um amor universal: pela humanidade, pelos bichos, pela rua, pelo que é feito com cuidado e verdade”.
A obra é dividida em partes que refletem diferentes camadas dessa experiência. A primeira é dedicada à infância e à essência do poeta. “Eu dedico a minha poesia àquela criança que eu sempre fui, sou e sempre serei”. Já a segunda parte, Falo de Mim, assume um tom confessional. “É toda em primeira pessoa. Eu me liberei. Muitos poetas consagrados falam de si porque o mundo se enxerga no que eles dizem”.
As seções seguintes aprofundam o viés crítico e metalinguístico da obra. Há poemas que refletem sobre a própria poesia como prática de amor e outros que assumem um olhar social e existencial mais duro. “Eu não deixo barato a qualidade do ser humano de hoje”, afirma. “É uma crítica ao mundo, mas sem perder a sensibilidade”.
Reconhecimento
Produzido de forma totalmente independente, ‘Falo de Amor’ foi concebido ao longo de quase um ano, com projeto gráfico assinado por um amigo de mais de 35 anos. “Eu fui pagando como amigo, aos poucos. Em outubro ficou pronto e eu decidi bancar a impressão”, conta.
A primeira tiragem é de apenas 70 exemplares, com novas reimpressões previstas conforme a demanda. “É um livro grande, com 256 páginas. Não é simples de produzir. Mas o trabalho precisa ser valorizado”.
O reconhecimento veio também do meio literário. Guilherme destaca a reação da escritora e editora Regina Alonso. “Ela fez elogios públicos que me deixaram embaixo da mesa”, brinca. “Uma pessoa com mais de 60 anos de prática na literatura, aos 82 anos, dizer isso, me fez ter certeza de que estou no caminho certo”.
Sentir, não entender
Para o autor, a proposta do livro não é ensinar, explicar ou conduzir o leitor. “Poema não tem que ser entendido, tem que ser sentido”, afirma. “Se não sentiu nada, passa para o outro. Em 150 poemas, você vai se identificar com um, dois ou três. O importante é sentir”.
Ele reforça que não acredita na poesia como autoajuda. “Eu não suporto autoajuda. Não quero que as pessoas leiam para aprender, mas para experimentar”. Para Guilherme, cada poema funciona como uma página distinta da vida, aberta à interpretação individual de quem lê.
Próximos passos
O lançamento de ‘Falo de Amor’ acontece neste sábado (31), na Estação da Cidadania. Após o evento, o livro poderá ser adquirido diretamente com o autor, por meio de contato por e-mail [email protected]. “Prefiro assim. É mais humano, mais direto”.
Entre os projetos futuros, Guy prepara novos livros, incluindo ‘Ode Casa’, que dialoga com temas de pertencimento, busca e reconstrução, além de uma obra dedicada exclusivamente à ideia de Deus — fora de qualquer perspectiva religiosa institucional. “Vai ser um livro beneficente, se tudo der certo”, adianta.
Enquanto isso, ‘Falo de Amor’ se apresenta como um gesto urgente. “Nós estamos precisando de mais amor no dia a dia. De dar bom dia, de dar um abraço, de olhar para o outro”, resume. “Escrever sobre amor hoje é quase um ato de resistência”.


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